Por que o Banco Central não baixa os juros? Os R$ 3,37 trilhões que lucram com a Selic ajudam a entender

Na véspera da decisão do Copom, dados do Tesouro mostram que bancos e fundos detêm quase 70% dos títulos públicos atrelados à Selic. A inflação explica a cautela do BC, mas não explica tudo.

Por que o Banco Central não baixa os juros? Os R$ 3,37 trilhões que lucram com a Selic ajudam a entender
(NMS Brasil)
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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anuncia nesta quarta-feira (4) a nova taxa Selic. A previsão do mercado é de mais um corte pequeno, de 13,75% para 13,50% ao ano. Para quem paga juros no cartão, no cheque especial ou na prestação da casa, a pergunta continua a mesma: por que os juros no Brasil demoram tanto para cair?

A resposta oficial é a inflação. Mas há uma segunda resposta, menos discutida, que tem a ver com quem ganha dinheiro com os juros altos. Um levantamento feito com dados do Tesouro Nacional e divulgado nesta terça-feira (3) ajuda a enxergar essa parte. Abaixo, explico as duas em perguntas e respostas.

Afinal, qual é a justificativa do Banco Central?

O BC tem um único objetivo legal: manter a inflação na meta. A meta é de 3% ao ano, com tolerância até 4,5%. Em setembro, o IPCA subiu 0,82% e chegou a 4,58% no acumulado de 12 meses, acima desse teto.

O mercado também prevê que a inflação de 2026 termine acima de 5%, e o próprio BC projetava 5,2% na reunião de setembro. Quando a inflação está acima do teto e a expectativa é de alta, a cartilha do Banco Central manda segurar os juros. Por isso a Selic, que começou o ano em 15%, caiu só 1,25 ponto em nove meses, em cinco cortes de 0,25 ponto cada.

Esse argumento é legítimo. Inflação alta pesa mais no bolso de quem é pobre, porque quem ganha pouco não tem como se proteger dela. Ninguém sério defende deixar os preços dispararem.

Então por que tanta gente critica?

Porque o remédio está forte demais. Com a Selic em 13,75% e a inflação perto de 4,6%, o juro real, que é o que sobra depois de descontar a inflação, fica em torno de 9 pontos. É um dos mais altos do mundo. Na prática, o BC freia a economia muito mais do que seria necessário para trazer a inflação de volta de alguns décimos acima do teto.

E esse custo não é só das empresas e das famílias. Ele aparece no orçamento público.

Quanto os juros custam para o governo?

A dívida pública federal chegou a R$ 9,383 trilhões em setembro. Só nos nove primeiros meses do ano, R$ 784,4 bilhões em juros foram somados a essa dívida.

Um detalhe torna o caso ainda mais claro. Entre janeiro e setembro, o Tesouro resgatou R$ 36,5 bilhões a mais em títulos do que emitiu. Ou seja, o governo pagou mais dívida do que pegou emprestado. Mesmo assim, a dívida cresceu cerca de R$ 748 bilhões. O que fez a dívida crescer foram os juros, não os gastos novos.

Existem R$ 4,84 trilhões em títulos públicos atrelados à Selic. Com esse estoque, cada 1 ponto a mais na taxa representa cerca de R$ 48,4 bilhões por ano em juros. É uma conta aproximada, mas mostra o tamanho do problema.

E quem recebe esse dinheiro?

Aqui entra o levantamento. Instituições financeiras e fundos de investimento concentram cerca de R$ 3,37 trilhões em títulos atrelados à Selic, quase 70% do total. Os bancos têm cerca de R$ 1,81 trilhão, e os fundos, R$ 1,56 trilhão.

Os mais ricos também foram atrás desse rendimento. Segundo a Anbima, investidores com mais de R$ 5 milhões aplicados tinham, em julho, R$ 1,28 trilhão em renda fixa, ou 45,9% de suas carteiras. Cinco anos antes, era 20,8%. Só no primeiro semestre de 2026, as aplicações diretas desse grupo em títulos públicos cresceram 56,9%.

Isso quer dizer que o BC trabalha para os bancos?

Não. Seria simplista e injusto dizer que a diretoria do Banco Central decide de olho no lucro dos bancos. Também é preciso lembrar que parte do dinheiro dos fundos pertence a pessoas comuns, e que os fundos de pensão, que guardam a aposentadoria de trabalhadores, têm 22,41% da dívida interna.

Mas os números revelam algo importante: os juros altos têm beneficiários organizados, com capacidade de influenciar o debate. Quando alguém propõe baixar a Selic mais rápido, a reação contrária vem justamente de quem lucra com ela. E essa reação costuma ser apresentada como uma análise técnica neutra.

A proposta de Lara Resende

Foi o que aconteceu nesta semana. O economista André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real, defende reduzir a Selic aos poucos, de 13,75% para cerca de 7,5% em 12 meses. A ideia faz parte de um plano para coordenar melhor a política de juros e a política de gastos do governo. Para ele, os juros altos são uma das principais causas do aumento da dívida pública, e não apenas o reflexo de gastos excessivos.

Bastou a proposta circular para o mercado reagir. Nesta terça, o dólar chegou perto de R$ 5,49, a Bolsa caiu cerca de 1,5% e os juros futuros subiram. Esse movimento, no entanto, também teve outras causas, nacionais e internacionais. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o plano não está em análise.

Os críticos de Lara Resende têm argumentos que merecem ser considerados. Para eles, um corte rápido poderia provocar saída de capital, alta do dólar e mais inflação. O economista responde que a redução seria gradual e que o país tem reservas internacionais suficientes para conter oscilações no câmbio.

O ponto que quase ninguém comenta

Existe uma particularidade brasileira que ajuda a explicar por que os juros altos funcionam pior aqui do que em outros países. Como uma grande parte da dívida pública rende diretamente a Selic, cada aumento de juros eleva automaticamente a renda de quem tem esses títulos, que são justamente os mais ricos.

Em outras palavras, o juro alto freia o consumo de quem depende de crédito, mas ao mesmo tempo aumenta a renda de quem já tem patrimônio, e essa renda continua circulando na economia. É como pisar no freio e no acelerador ao mesmo tempo. O efeito é um remédio mais fraco, que exige doses maiores, e um custo que acaba sendo pago por todos os brasileiros.

A decisão desta quarta vai mostrar o ritmo dos cortes. A discussão sobre quem paga e quem recebe os juros no Brasil, porém, vai continuar mesmo depois dela.

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Fontes e referências 4

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