9,17% de juro real coloca o Brasil acima de países com nota de risco pior, como Colômbia e Costa Rica

Levantamento com dados oficiais dos bancos centrais mostra que o Brasil tem o maior juro real das Américas, mesmo com risco de crédito igual ou menor que o de vizinhos que cobram bem menos. No Copom, que define a Selic, o diretor de Política Monetária veio direto da tesouraria do Bradesco.

9,17% de juro real coloca o Brasil acima de países com nota de risco pior, como Colômbia e Costa Rica
(NMS Brasil)
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Juro real nas Américas e nota de risco de cada país (outubro de 2026)
0%20%40%60%80%Brasil — Aprov.: 45%Brasil — Juros Real: 9,17%Colômbia — Aprov.: 40%Colômbia — Juros Real: 5,96%Paraguai — Aprov.: 55%Paraguai — Juros Real: 3,8%México — Aprov.: 60%México — Juros Real: 3,05%Costa Rica — Aprov.: 45%Costa Rica — Juros Real: 2,66%Uruguai — Aprov.: 65%Uruguai — Juros Real: 1,32%El Salvador — Aprov.: 25%El Salvador — Juros Real: 1,07%Bolívia — Aprov.: 20%Bolívia — Juros Real: 1,03%Chile — Aprov.: 75%Chile — Juros Real: 0,4%BrasilBrasilColômbiaColômbiaParaguaiParaguaiMéxicoMéxicoCosta RicaCosta RicaUruguaiUruguaiEl SalvadorEl SalvadorBolíviaBolíviaChileChile
Ver os dados em tabela
Aprov.Juros Real
Brasil45%9,17%
Colômbia40%5,96%
Paraguai55%3,8%
México60%3,05%
Costa Rica45%2,66%
Uruguai65%1,32%
El Salvador25%1,07%
Bolívia20%1,03%
Chile75%0,4%

O juro real do Brasil, de 9,17% ao ano, é o maior das Américas, e é mais alto até que o de países que as agências de risco consideram mais arriscados para investir. Pelos dados oficiais de outubro de 2026, a Colômbia, com nota de crédito pior que a brasileira e inflação mais alta, tem juro real de 5,96%. A Costa Rica e a República Dominicana, com a mesma nota do Brasil, têm juro real de 2,66% e 0,38%. O cálculo é a taxa básica de juros de cada país menos a inflação dos últimos 12 meses.

A Selic, hoje em 13,75% ao ano, é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Dos sete membros atuais do comitê, dois têm carreira no mercado financeiro, entre eles o diretor de Política Monetária, Nilton David, que chefiava a tesouraria do Bradesco quando foi indicado. Os outros cinco são servidores de carreira do Banco Central ou vêm da academia.

Em números

  • 13,75% ao ano é a Selic, contra inflação de 4,58% em 12 meses.
  • 9,17% é o juro real do Brasil, o maior das Américas no levantamento.
  • 5,96% é o juro real da Colômbia, que tem nota de risco pior que a brasileira.
  • 4 países das Américas com nota igual ou pior que a do Brasil têm juro real menor.
  • 2 dos 7 membros atuais do Copom vieram do mercado financeiro.

Países com nota de risco pior cobram juros menores

A nota de crédito, dada por agências como a S&P, mede o risco de um país não pagar suas dívidas. O Brasil tem nota BB, dois degraus abaixo do chamado grau de investimento. Em tese, quanto maior o risco, mais juros os investidores cobram. Mas os dados mostram que o Brasil cobra juros reais muito acima de países com risco igual ou maior.

A Colômbia tem nota BB-, um degrau abaixo do Brasil. Sua taxa básica é de 12,25%, mas a inflação é de 6,29%, o que dá juro real de 5,96%. Honduras, também com nota BB-, tem juro real negativo, de -0,53%. Com a mesma nota BB do Brasil, a Costa Rica tem juro real de 2,66%, a República Dominicana, de 0,38%, e a Jamaica, de -2,6%. Mesmo países bem mais arriscados, como El Salvador (B-) e Bolívia (CCC+), têm juro real em torno de 1%.

Entre os países mais bem avaliados, a distância é ainda maior. O México, com nota BBB, dois degraus acima do Brasil, tem juro real de 3,05%. O Chile, com nota A, tem 0,4%.

Metade da dívida pública rende exatamente a Selic

O juro alto tem um destino claro. Cerca de metade da dívida pública brasileira é formada por títulos que rendem a própria Selic, as Letras Financeiras do Tesouro. Segundo o Tesouro Nacional, os bancos são os maiores donos da dívida interna, com 31,8% do total. Nos 12 meses até setembro, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão em juros, segundo o Banco Central.

Copom tem diretor que veio da tesouraria do Bradesco

O Copom é formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central, todos indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado. Hoje, o comitê tem sete membros, porque duas vagas estão abertas desde janeiro. Todos foram indicados por Lula.

Dois deles têm carreira no mercado financeiro. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, presidiu o Banco Fator, um banco de investimento, antes de entrar no governo. O diretor de Política Monetária, Nilton David, responsável por executar as decisões sobre a Selic e o câmbio, era chefe de operações de tesouraria do Bradesco quando foi indicado, em novembro de 2024. Antes, passou por Morgan Stanley, Citi e Barclays. Seu currículo oficial no Banco Central destaca a “ampla experiência no mercado financeiro”.

Os outros cinco membros têm outra origem. Ailton de Aquino, Gilneu Vivan, Izabela Correa e Rodrigo Teixeira são servidores de carreira do Banco Central. Paulo Picchetti é economista e professor da Fundação Getulio Vargas.

A passagem de profissionais entre bancos e o Banco Central é antiga. Em 2023, quatro dos nove membros do Copom, então presidido por Roberto Campos Neto, ex-executivo do Santander, tinham vindo de bancos de investimento. Pesquisadores que estudam o tema apontam que a trajetória profissional dos diretores e a perspectiva de cargos futuros no mercado podem influenciar suas decisões. Lula poderá indicar seis diretores até o fim de 2027, o que pode mudar o perfil do comitê.

Contraponto

A nota de risco não é o único fator que define os juros. Ela mede a chance de um país dar calote na dívida em moeda estrangeira, mas não o risco de inflação. O Banco Central argumenta que a inflação, de 4,58%, ainda está acima do teto da meta, de 4,5%, e que a economia segue aquecida, com desemprego de 5,2%.

O Brasil também tem números fiscais piores que os da maioria dos vizinhos comparados. O déficit total do governo, incluindo juros, é de 8,3% do PIB, o maior da lista depois da Bolívia. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, pelo critério do Banco Central. Para analistas, isso leva investidores a cobrar mais para financiar o governo. Críticos respondem que a maior parte desse déficit é justamente o pagamento de juros, o que cria um ciclo: juros altos aumentam o déficit, que serve de justificativa para manter os juros altos.

O próprio presidente do Banco Central apontou um problema estrutural: como metade da dívida rende a Selic, subir os juros aumenta a renda de quem tem esses títulos, o que reduz o efeito da alta sobre o consumo. Ele chegou a falar em “canais entupidos” da política monetária.

E a presença de ex-executivos de bancos no Copom não prova, por si só, que as decisões favoreçam os bancos. Os diretores votam com nome registrado em ata, e os indicados por Lula, inclusive servidores de carreira sem ligação com bancos, votaram por manter os juros altos.

O que observar

A próxima reunião do Copom e o Boletim Focus vão mostrar se a Selic volta a cair ou para depois da eleição. Também vale acompanhar as duas vagas abertas na diretoria do Banco Central e o perfil dos próximos indicados por Lula: se virão do mercado financeiro, da academia ou do próprio Banco Central. Por fim, uma redução da parcela da dívida atrelada à Selic, já defendida por Galípolo, poderia mudar quem ganha com os juros altos.

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Fontes e referências 10

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