Homenagens a algozes de Marielle, Amarildo e juíza Patrícia Acioli expõem teia de relações de Flávio Bolsonaro com a milícia do Rio
Levantamento detalhado por jornalistas investigativos e registros da Alerj mostram que o senador condecorou ao menos 23 agentes que se tornaram réus ou foram condenados por assassinatos, tortura e chefia de grupos de extermínio.
A trajetória parlamentar de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) carrega um rastro documental que desafia a explicação de mera coincidência. Ao longo de quatro mandatos como deputado estadual, o primogênito de Jair Bolsonaro concedeu condecorações oficiais a pelo menos 23 policiais militares e agentes de segurança pública que, mais tarde, acabaram formalmente denunciados ou condenados pela Justiça por crimes que vão de homicídio qualificado e tortura à chefia de milícias armadas e lavagem de capitais.
O padrão chama a atenção pela gravidade dos episódios criminais que marcaram o noticiário fluminense. Em 2004, Flávio concedeu moção de louvor ao então PM Ronald Paulo Alves Pereira. Dois meses após a honraria, Ronald foi acusado pela chacina da casa noturna Via Show, na Baixada Fluminense, que culminou no assassinato de quatro jovens. Condenado a mais de 70 anos de prisão pelo crime e por comandar milícia em Muzema, o major Ronald reapareceu anos depois nas apurações da Polícia Federal como o homem que monitorou a rotina e os passos de Marielle Franco e Anderson Gomes para viabilizar a execução da vereadora em 2018.
Outro caso emblemático é o do tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira, laureado com moção de louvor pelo parlamentar. Anos depois, o mesmo oficial foi apontado como o mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli, executada com 21 tiros em frente à sua residência por combater o crime organizado e grupos de extermínio formados por policiais. A lista abrange ainda o coronel Edson Raimundo dos Santos, condecorado por Flávio em 2008 e condenado pelo desaparecimento, tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza dentro da UPP da Rocinha.
A condecoração mais notória, contudo, recai sobre o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega. Em 2005, quando já se encontrava preso sob acusação de torturar e matar o flanelinha Leandro dos Santos Silva, Adriano recebeu de Flávio Bolsonaro a Medalha Tiradentes — a mais alta comenda do Legislativo fluminense —, entregue diretamente no cárcere. Anos depois, Nóbrega fundou e liderou o temido "Escritório do Crime", consórcio de matadores de aluguel da Zona Oeste carioca, mantendo laços estreitos com Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio apontado como operador do esquema das "rachadinhas".
Apurações recentes ampliaram as conexões para o mandato no Senado Federal, incluindo o envio de R$ 200 mil em recursos orçamentários a projetos associados a intermediários da milícia e a atuação do senador como advogado de defesa de agentes investigados por mortes de civis. Em resposta reiterada a esses levantamentos, Flávio Bolsonaro sustenta que suas homenagens sempre tiveram o objetivo de valorizar a categoria policial e que seria impossível antecipar eventuais desvios de conduta cometidos posteriormente por agentes condecorados.
Fontes e referências
- Amado mundo Youtube (youtube.com)
- Polícia Federal (Inquérito Caso Marielle Franco e Anderson Gomes) (gov.br)
- Folha de S.Paulo (www1.folha.uol.com.br)
- Revista Piauí (piaui.folha.uol.com.br)
- Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Diário Oficial da Alerj) (alerj.rj.gov.br)
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