"Pátria Submissa": documentário investiga interesses dos EUA sobre terras raras e nióbio no Brasil e expõe críticas do General Santos Cruz
Apresentado por Wagner Moura, episódio disseca pressões geopolíticas de Donald Trump sobre minerais críticos da transição energética e aponta articulações de aliados de Flávio Bolsonaro no exterior.
O sexto episódio da série investigativa Revelando, intitulado "Pátria Submissa" e apresentado pelo ator Wagner Moura no canal Calma Urgente, detalha as disputas geopolíticas globais em torno das imensas reservas de minerais críticos do subsolo brasileiro — sobretudo terras raras, nióbio e grafite. A reportagem aborda como o avanço da transição energética e a dependência dos Estados Unidos em relação ao monopólio da China transformaram o território nacional em peça central da estratégia norte-americana, expondo a existência de pressões diplomáticas, transações de mineradoras e articulações políticas de campanha antes do segundo turno eleitoral.
O valor estratégico: terras raras, nióbio e transição tecnológica
A produção parte de dados geológicos oficiais que evidenciam o peso global dos recursos minerais brasileiros:
- Terras raras: Fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, sistemas de mísseis e drones. Das 75 milhões de toneladas globais estimadas pelo governo dos EUA, a China lidera com 44 milhões, e o Brasil ocupa o segundo lugar com cerca de 11 milhões de toneladas (quase 20% do total).
- Dependência norte-americana: Cerca de 70% das terras raras consumidas pelos EUA têm origem chinesa, o que torna a busca por rotas alternativas um imperativo de segurança nacional em Washington.
- Nióbio e grafite: O Brasil detém cerca de 93% da produção mundial de nióbio — liga essencial para supercondutores e aços de alta resistência usados na indústria aeroespacial — e é um dos principais fornecedores globais de grafite para ânodos de baterias.
O documentário cita aquisições recentes de concessões de mineração no país, como a atuação da norte-americana Energy Fuels no sul da Bahia (com dezenas de processos em Prado, Alcobaça e Caravelas) e a negociação multibilionária da mineradora Serra Verde, em Goiás, único polo de terras raras atualmente em operação em escala industrial no Brasil. O contraponto do governo federal citado no vídeo foi a sanção de marco legal recente obrigando que o processamento mineral e o valor agregado permaneçam em solo brasileiro, vedando a mera exportação de rocha bruta.
O padrão de acordos internacionais no governo Trump
O vídeo contextualiza as investidas sobre recursos estratégicos traçando paralelos com intervenções e negociações conduzidas por Donald Trump em outros países:
| País | Instrumento de Pressão | Termos do Acordo / Contrapartida de Recursos |
| Ucrânia | Dependência bélica em meio à guerra contra a Rússia | Acordo de 2025 destinando metade da receita de novas licenças de gás, petróleo e minerais a fundo gerido em conjunto com os EUA. |
| Venezuela | Captura de Nicolás Maduro e transição forçada | Concessão de 17 campos petrolíferos por até 100 anos, participação acionária de 35% e compra de barris a preço de custo. |
| Colômbia | Alinhamento da nova liderança de direita de Abelardo de la Espriella | Assinatura prioritária de acordo bilateral voltado à exploração de minerais críticos. |
| Argentina | Empréstimo financeiro de US$ 20 bilhões sob o governo de Javier Milei | Acordo prioritário para suprimento e escoamento de minerais críticos aos EUA. |
No caso brasileiro, o programa relembra as tarifas de importação de 50% impostas por Trump ao mercado nacional e uma lista com 21 exigências apresentadas pela diplomacia norte-americana — documento que pedia desde prioridade irrestrita para mineradoras americanas e veto a investimentos chineses até a revisão de regras concorrenciais contra o sistema PIX, matéria arquivada pelo Itamaraty.
A rede de interlocutores e bastidores da campanha
O documentário investiga as conexões políticas e financeiras entre aliados de Flávio Bolsonaro (PL) e grupos conservadores dos EUA:
- Discursos no exterior: Recorda o pronunciamento do senador na CPAC, no qual afirmou em inglês que "o Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos".
- Articulações diplomáticas: Cita documento de 22 páginas intitulado Prosperity Partnership, redigido por André Marinho, tratando de cooperação na área de minerais, e sua subsequente interlocução com o vice-presidente norte-americano JD Vance.
- Fundos de investimento: Aponta a criação de ramificações como a RockBridge Brasil e aportes de fundos com participação de Donald Trump Jr. (como o 1789 Capital) em fabricantes de ímãs vinculadas a cadeias de suprimento com jazidas na Bahia.
- Papel de influenciadores: Destaca a atuação do comentarista Paulo Figueiredo e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro em Washington, defendendo abertamente a aplicação de sanções e tarifas contra autoridades e setores produtivos do Brasil.
"Não é direita, é vigarice": entrevista do General Santos Cruz
Em entrevista concedida ao jornalista Bruno Torturra, o general de divisão da reserva e ex-ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz criticou severamente o que classificou de postura subserviente de agentes públicos nacionais:
"Isso aí que a gente vê, esse extremismo, não é direita. Isso é vigarice. Chama-se submissão voluntária. Os Estados Unidos se beneficiam de um voluntariado que nem precisaram recrutar [...] Uma pessoa pública que coloca um gorro 'Make America Great Again' perdeu totalmente o sentimento de patriotismo. Fica em pé ao lado do presidente americano como um subalterno."
— General Santos Cruz
Sobre a gestão das riquezas do subsolo, o militar enfatizou que concessões indiscriminadas ferem a segurança nacional:
"O Brasil não pode vender terras raras nem minério de ferro como se tivesse vendendo pão em boteco. Jamais seremos colônia americana a não ser que alguém de dentro ofereça esse apoio subalterno para ganhar pontos em corrida eleitoral."
— General Santos Cruz
O programa conclui ressaltando que o potencial econômico brasileiro nas próximas décadas — ancorado tanto nos minerais indispensáveis para a tecnologia do século XXI quanto na imensa biodiversidade da Amazônia — depende da capacidade do Estado de exercer soberania sobre suas reservas e direcionar o processamento industrial em benefício do desenvolvimento nacional.
Fontes e referências
- Youtube: Revelando (youtube.com)
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