Reportagem revela festa de Flávio Bolsonaro em lancha com lobistas de vacinas durante o pico da pandemia
Apuração da revista Piauí aponta que o senador participou de encontro no Lago Paranoá com empresários ligados à Precisa Medicamentos e à Covaxin enquanto o país empilhava mais de mil mortes diárias por Covid-19.
Em meados de julho de 2020, quando o Brasil vivenciava uma das fases mais dramáticas da crise sanitária — ultrapassando a marca diária de 1.100 a 1.200 vítimas fatais pela Covid-19 —, os bastidores do poder em Brasília operavam em um ritmo alheio à tragédia hospitalar. Uma investigação detalhada publicada pela revista Piauí revelou que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) participou de uma confraternização a bordo de uma lancha privada no Lago Paranoá, na capital federal, acompanhado de empresários investigados por negociatas na compra de imunizantes e garotas de programa.
De acordo com relatos de testemunhas presentes na embarcação, documentos levantados por comissões parlamentares e registros de deslocamento, o encontro reuniu nomes que posteriormente se tornaram alvos centrais da CPI da Pandemia. Entre os participantes estavam o lobista Danilo Berndt Trento — diretor institucional da Precisa Medicamentos — e operadores ligados a Francisco Maximiano, dono da empresa que tentou intermediar junto ao Ministério da Saúde o polêmico e superfaturado contrato de R$ 1,6 bilhão para aquisição das doses da vacina indiana Covaxin.
O momento mais contundente do passeio náutico ocorreu por volta das 15h, nas imediações de um restaurante flutuante do lago. Segundo a apuração jornalística, ao término da confraternização na cabine da lancha, Danilo Trento retirou do próprio pulso um relógio de luxo da marca Rolex e o entregou diretamente como presente a Flávio Bolsonaro, que teria desembarcado no cais já ostentando a joia milionária.
O episódio ganha contornos graves de conflito de interesses e indícios de propina devido à atuação política exercida pelo parlamentar no mesmo período. Documentos oficiais e registros de audiências demonstram que Flávio atuou como interlocutor direto dos sócios da Precisa Medicamentos junto à cúpula do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e defendeu enfaticamente a regularidade das tratativas da empresa durante os trabalhos da CPI no Senado, além de ter realizado viagens internacionais aos Estados Unidos na companhia dos mesmos personagens.
A revelação reabre questionamentos éticos e jurídicos sobre as conexões entre o mandato parlamentar e agentes do setor privado que tentavam lucrar com verbas públicas emergenciais. Enquanto a assessoria do senador nega irregularidades e afirma tratar-se de ilações sem base em processos judiciais concluídos, o caso ressurge como um dos símbolos mais constrangedores da desconexão entre os privilégios da classe política e a dor coletiva enfrentada pela população no auge da emergência sanitária.
Fontes e referências
- G1 Política (g1.globo.com)
- Diário do Centro do Mundo (diariodocentrodomundo.com.br)
- Senado Federal (Relatório Final da CPI da Pandemia) (legis.senado.leg.br)
- Agenda do Poder (agendadopoder.com.br)
- Revista Piauí (piaui.folha.uol.com.br)
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