O espelho quebrado de Milei: o plano de Flávio Bolsonaro e Daniella Marques para reeditar o choque argentino no Brasil
Inspirados no receituário de motosserra que empurrou a Argentina para uma nova recessão técnica, o candidato do PL e sua principal assessora econômica desenham um "tesouraço" de R$ 250 bilhões que ameaça asfixiar a economia real.
Quem acompanha as declarações de palanque de Flávio Bolsonaro (PL) percebe de imediato o fascínio que o modelo ultraliberal de Javier Milei exerce sobre sua plataforma eleitoral. A imagem da motosserra em punho, vendida nas redes sociais como símbolo definitivo de eficiência contra o gasto público, foi rapidamente nacionalizada pelo senador fluminense sob a alcunha de "tesouraço": uma promessa de ceifar entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões do orçamento da União logo nos primeiros meses de mandato. Nos bastidores, a engenharia dessa guilhotina fiscal é liderada pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal e ex-secretária de Paulo Guedes, Daniella Marques, apontada como a principal cotada para assumir o Ministério da Fazenda.
O problema de importar essa cartilha para o Brasil é que o laboratório original na Argentina acaba de colapsar, como dissecou recentemente o analista Frederico Krepe. Longe de consolidar o paraíso da desregulamentação, a economia do país vizinho voltou a mergulhar em terreno negativo. Os dados de meados de 2026 registram uma contração mensal de 2,9% na atividade econômica, com desabamento contínuo na construção civil (-4,4% no ano) e na manufatura (-3,2%) , consolidando o segundo trimestre consecutivo de queda do PIB e empurrando o país para uma recessão técnica aberta.
O fracasso argentino derruba a tese mágica vendida por Daniella Marques e pelo time econômico do PL. A administração de Milei não fracassou por falta de apoio internacional — ao contrário, contou com um colchão sem precedentes de US$ 20 bilhões do FMI, US$ 10 bilhões do Banco Mundial e até intervenção direta do Tesouro dos Estados Unidos no mercado de câmbio. O colapso decorreu de um erro primário de diagnóstico: acreditar que basta amputar o orçamento estatal para gerar riqueza. Ao ignorar o que a teoria econômica chama de "restrição externa" — a incapacidade estrutural de gerar dólares pelas exportações para sustentar a compra de máquinas e insumos —, o choque fiscal apenas sufocou o consumo popular, congelou o mercado interno e ampliou a dependência de socorros externos que agora voltam a cobrar a conta em forma de miséria e desemprego.
No Brasil, a aplicação desse mesmo remédio com sinal invertido teria contornos ainda mais dramáticos. Para viabilizar a tesourada de R$ 250 bilhões projetada pela dupla Flávio-Daniella, o plano de governo do PL mira diretamente a desvinculação das despesas obrigatórias e a revisão dos pisos constitucionais de Saúde, Educação e reajuste da Previdência Social. O efeito mecânico de um arrocho desse porte, sem que haja qualquer estrangulamento de balanço de pagamentos na economia brasileira — que detém US$ 350 bilhões em reservas internacionais —, seria retirar brutalmente o poder de compra de dezenas de milhões de famílias para transferir essa economia ao rentismo da dívida pública.
Ao tentar vender um desastre alheio como passaporte para a modernidade, o projeto desenhado pela candidatura bolsonarista ignora as lições mais básicas do próprio fracasso que pretende homenagear. Cortar a carne do Estado não gera, por si só, uma indústria inovadora nem empregos de qualidade; na prática, apenas reproduz em solo brasileiro o mesmo ciclo recessivo e de esgarçamento social que hoje paralisa a Argentina.
Fontes e referências
- Bloomberg Línea (bloomberglinea.com.br)
- JOTA Eleições (jota.info)
- IstoÉ Dinheiro (istoedinheiro.com.br)
- Poder360 (poder360.com.br)
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