Itaú lucra R$ 137 milhões por dia: o que o recorde de R$ 12,6 bilhões diz sobre o Brasil

O maior banco do país teve o 12º trimestre seguido de lucro em alta, enquanto o rotativo do cartão passa de 450% ao ano. A eficiência do banco não explica sozinha um retorno que nenhum outro setor produtivo consegue alcançar.

Itaú lucra R$ 137 milhões por dia: o que o recorde de R$ 12,6 bilhões diz sobre o Brasil
(NMS Brasil)
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R$ 137 milhões por dia, ou cerca de R$ 5,7 milhões por hora, inclusive de madrugada, nos fins de semana e nos feriados. Esse é o lucro do Itaú Unibanco dividido pelos dias do terceiro trimestre de 2026. O número oficial, divulgado na noite de terça-feira (3), foi um lucro recorrente de R$ 12,6 bilhões, alta de 6,2% em relação ao mesmo período do ano passado e o 12º trimestre seguido de crescimento. Em nove meses, o banco já soma R$ 37,3 bilhões.

O mercado recebeu o resultado com tranquilidade, porque veio exatamente como previsto. E essa é justamente a questão: no Brasil, um lucro bilionário e crescente de banco virou algo tão previsível quanto o calendário.

O número que importa não é o lucro

Lucro grande, sozinho, não é escândalo. Um banco do tamanho do Itaú, com R$ 1,54 trilhão em crédito, naturalmente lucra muito. O dado mais revelador é outro: o retorno sobre o patrimônio (ROE), que mede quanto o banco ganha para cada real que os acionistas colocaram no negócio.

No trimestre, esse retorno ficou em 23,6% ao ano. Na operação brasileira, chegou a 24,5%. Para entender o tamanho disso, basta comparar: a inflação está em torno de 4,6% e a Selic, uma das maiores do mundo, em 13,75%. O Itaú rende ao acionista quase o dobro da Selic e cerca de cinco vezes a inflação. Retornos acima de 20% são considerados excepcionais em qualquer lugar do mundo. Aqui, viraram o padrão do maior banco do país.

De onde sai o dinheiro

A principal fonte do lucro é a margem financeira, que é a diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que cobra para emprestar. Ela chegou a R$ 34,6 bilhões no trimestre, alta de 7,8% em um ano. As receitas com tarifas ficaram estáveis, em R$ 11 bilhões. Ou seja, o crescimento veio do crédito.

Do outro lado do balcão está o cliente. Segundo o Banco Central, os juros médios do rotativo do cartão chegaram a 451,7% ao ano em setembro. Quem entra nessa modalidade paga em um ano mais de quatro vezes o valor que deve. Em geral, não é por descuido: é a pessoa cujo salário acabou antes do fim do mês.

Há também um detalhe político. Uma das linhas que mais cresceram no Itaú foi o consignado privado, que quase dobrou em 12 meses. É o crédito com desconto em folha para trabalhadores com carteira assinada, ampliado pelo governo federal com a promessa de juros menores. O programa pode até ter reduzido as taxas para quem usava cheque especial. Mas um crédito descontado direto do salário, com risco de calote baixíssimo, também é uma ótima fonte de margem para os bancos. Parte de uma política pensada para aliviar o trabalhador acabou turbinando o balanço de quem empresta.

O banco ganha dos dois lados

Na véspera do resultado, um levantamento com dados do Tesouro mostrou que bancos e fundos detêm quase 70% dos títulos públicos que rendem a Selic, cerca de R$ 3,37 trilhões. Só as instituições financeiras têm aproximadamente R$ 1,81 trilhão.

Juntando as duas informações, o desenho fica claro. Com juros altos, o banco ganha ao emprestar caro para famílias e empresas e ganha de novo ao aplicar em títulos do governo, que pagam a Selic. É um negócio protegido nos dois sentidos: o risco fica com quem pega o empréstimo, e o rendimento garantido vem do contribuinte.

O que o setor responde

É preciso ouvir o outro lado, e ele tem argumentos.

Eficiência. O Itaú tem inadimplência de 1,9%, cerca de metade da média do mercado para pessoas físicas e empresas. Isso é resultado de uma boa gestão de risco, e não de uma vantagem indevida.

O spread não é só lucro. O setor bancário lembra há anos que a inadimplência e os impostos sobre o crédito respondem por boa parte da diferença entre os juros de captação e os cobrados do cliente. Também cita a dificuldade de recuperar garantias no Brasil.

O lucro é distribuído. Os dividendos do Itaú vão para milhares de acionistas, incluindo fundos de pensão e pequenos investidores.

A rentabilidade caiu. O ROE recuou de 24,3% no segundo trimestre para 23,6%, e as receitas com serviços e seguros estão estagnadas.

Tudo isso é verdade. Mas nada disso explica por que o retorno se mantém tão acima do resto da economia, trimestre após trimestre. Se o problema fosse apenas risco e impostos, o resultado seria um lucro normal, não um lucro excepcional e constante. O que explica a diferença é a concentração: poucos bancos grandes dominam o crédito no país, e o cliente tem pouca opção real. Fintechs e o Pix ajudaram a ampliar a concorrência, mas ainda não mudaram essa estrutura.

O que poderia mudar

Não se trata de demonizar um banco bem administrado. O problema é o modelo que permite esse resultado a qualquer custo para a sociedade. Algumas medidas poderiam equilibrar o jogo:

  • Mais concorrência de verdade, com portabilidade de crédito fácil e automática e o open finance funcionando para o cliente, e não só para o banco.
  • Limites mais rígidos para modalidades com juros abusivos, como o rotativo do cartão, que mesmo com o teto em vigor desde 2024 continua acima de 450% ao ano.
  • Tributação mais justa sobre lucros e dividendos, para que um setor tão rentável contribua de forma proporcional.
  • Uma discussão séria sobre a dívida pública atrelada à Selic, que transforma cada aumento de juros em renda garantida para quem já tem muito.

Um banco que lucra R$ 137 milhões por dia em um país onde milhões de famílias estão endividadas não é sinal de que o sistema funciona. É sinal de que ele funciona muito bem para poucos.

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Fontes e referências 6

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