Esquema com criptomoedas e crianças de Uganda pede votos para Flávio Bolsonaro e acende alerta na Justiça Eleitoral
Iniciativa "Brasil 22 Token" oferece ativos digitais em troca de engajamento nas redes; especialistas veem semelhança com a tática que causou a inelegibilidade de Pablo Marçal.
Uma ação de engajamento digital que combina a oferta de criptomoedas e vídeos com crianças de Uganda pedindo votos para o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) entrou na mira de advogados e especialistas por suspeita de crime eleitoral. De acordo com informações reveladas pela jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, a plataforma Brasil 22 Token tem distribuído unidades do ativo digital "B22" para usuários que impulsionarem seus conteúdos e compartilharem mensagens de propaganda política na internet.
O mecanismo opera por meio de um airdrop — modalidade usual no mercado cripto para distribuição gratuita de moedas. Para ter acesso aos repasses, os internautas são orientados a possuir carteiras digitais, compartilhar as publicações nas redes sociais e anexar os links como comprovação de engajamento. Paralelamente, o próprio portal mantém uma aba intitulada "Nosso apoio ao voto 22", em alusão ao número de urna de Flávio Bolsonaro.
A principal vitrine da operação é o perfil do projeto social @hyperskidsafrica no Instagram, que reúne quase 13 milhões de seguidores. Em uma gravação com mais de 1,2 milhão de visualizações, crianças africanas vestem camisas com o logotipo "B22 token" e cantam uma música em apoio ao número eleitoral do presidenciável do PL, citando figuras como Pablo Marçal e o deputado Nikolas Ferreira.
Recompensa financeira viola normas de propaganda eleitoral
A concessão de qualquer contrapartida ou vantagem econômica em troca de divulgação eleitoral é expressamente proibida pelas resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A legislação veda a estruturação de premiações, rankings ou mecanismos competitivos que remunerem indivíduos, direta ou indiretamente, pela veiculação de propaganda na internet.
Em análise à reportagem, o advogado eleitoral Hélio Silveira (que liderou a assessoria jurídica da campanha de Tabata Amaral em 2024) apontou ilegalidades evidentes:
"Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia: oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato."
Silveira destacou ainda que a prática pode se enquadrar como doação irregular de pessoa jurídica à campanha de Flávio Bolsonaro, na hipótese de haver estrutura empresarial e recursos financeiros financiando a promoção do candidato. Até o momento, o Judiciário Eleitoral não expediu liminares ou despachos formais sobre o token.
Semelhança com os "concursos de cortes" de Pablo Marçal
O modelo operacional reedita os "concursos de cortes" executados durante a disputa eleitoral paulistana em 2024 por Pablo Marçal. Naquela ocasião, apoiadores recebiam bonificações financeiras atreladas à visualização e à repercussão de vídeos curtos do empresário.
Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) confirmou a inelegibilidade de Marçal por oito anos devido ao uso indevido dos meios de comunicação social, além de manter multa de R$ 420 mil por desobediência a determinações judiciais. O paralelismo ganha destaque político visto que Marçal foi integrado à coordenação de campanha de Flávio Bolsonaro no fim de setembro.
Projeto nega coordenação partidária; campanha mantém silêncio
Em comunicado divulgado em sua página, os administradores do Brasil 22 Token afirmam não ter qualquer relação orgânica ou institucional com Flávio Bolsonaro, com o Partido Liberal (PL) ou com os comitês da coligação. A organização sustenta que a manifestação pelo voto 22 reflete uma opinião própria e que a entrega dos ativos ocorreria independentemente de afinidade partidária.
Apesar da negativa formal de vinculação, a distribuição efetiva de criptoativos associada a publicações eleitorais permanece no centro das apurações jurídicas. Até a publicação desta reportagem, a equipe oficial de campanha de Flávio Bolsonaro não se pronunciou sobre o caso.
Fontes e referências
- Revista Fórum RSS (revistaforum.com.br)
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