Um pedido feito pelos dois lados: 35 mil votos entraram depois das 17h, numa eleição decidida por 4,4 milhões
A prorrogação decidida pelo STF quando as urnas já fechavam virou munição para o pedido de anulação de Flávio Bolsonaro. Os registros das urnas mostram que esses votos equivalem a menos de 1% da vantagem de Lula.
Era 17h01 de domingo, 25, quando a decisão chegou. Na maior parte do país, os mesários já tinham digitado o código de encerramento, impresso os boletins e guardado as urnas. Foi nesse minuto que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, decidiu estender a votação do segundo turno até as 19h em todo o Brasil. A ordem chegou depois do horário que pretendia prorrogar e deixou milhares de seções sem saber o que fazer. Pouco depois, o próprio Zanin esclareceu que a extensão valia apenas onde as urnas ainda não tinham sido encerradas. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, acatou a decisão, e a apuração ficou parada enquanto a medida era aplicada.
Na manhã desta segunda-feira, 26, os números mostraram o tamanho real do episódio. A equipe de Tecnologia Digital de Jornalismo da TV Globo analisou os registros das urnas de 497.897 seções eleitorais, com dados do TSE extraídos até as 6h. Esses arquivos guardam o horário de cada operação feita pela máquina, mas não mostram quem votou nem em quem. O levantamento encontrou 35.521 confirmações de voto para presidente registradas depois das 17h. Dessas, 30.866 estavam em seções já conferidas com os boletins de urna e totalizadas. As outras 4.655 ainda aguardavam validação.
O resultado final da eleição foi muito mais largo. Lula (PT) foi reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4,4 milhões de votos. Mesmo que todos os votos registrados depois das 17h tivessem ido para Lula, eles representariam menos de 1% dessa vantagem e cerca de 0,03% de todos os votos válidos. É preciso lembrar também que nem todo voto depois das 17h vem da prorrogação: pelas regras da Justiça Eleitoral, quem está na fila no horário de encerramento recebe uma senha e vota normalmente. O levantamento não separa os dois casos, o que significa que o número de votos ligados à prorrogação é, no máximo, esse.
Um pedido feito pelos dois lados
A prorrogação não partiu de apenas uma das campanhas. Ao longo da tarde, as duas candidaturas pediram mais tempo de votação, cada uma por um motivo. A campanha de Lula relatou falhas no transporte público em vários estados. A de Flávio pediu ao TSE que a votação fosse estendida até as 19h em municípios do Sul e do Sudeste afetados por chuvas, alagamentos e bloqueios, e que a divulgação dos resultados só começasse depois do fechamento nesses locais. Na petição, os advogados do senador argumentaram que garantir o voto apenas a quem já estivesse na fila não resolvia o problema de quem não conseguia chegar à seção. Zanin atendeu aos pedidos, mas tarde demais para a maioria das urnas.
O presidente do TSE explicou a dificuldade técnica: como a decisão saiu depois das 17h, milhares de urnas já estavam encerradas, e a programação delas não permite reabrir a votação. Segundo Nunes Marques, o bloqueio da apuração serviu para garantir que os dados dos boletins não fossem acessados por ninguém, nem pelo próprio tribunal. Depois de concluída a contagem, o ministro descartou qualquer influência da prorrogação no resultado, disse confiar no processo eleitoral e contou ter telefonado para os dois candidatos.
A contestação
Flávio Bolsonaro não aceitou o resultado. Depois da derrota, o senador afirmou ser impossível reconhecer a eleição e anunciou que vai pedir a anulação. A confusão das 17h01 é um dos pontos que alimentam essa contestação. Analistas já tinham previsto, ainda no domingo, que uma decisão daquelas, tomada naquele horário, provocaria questionamentos sobre a condução do segundo turno. Os registros das urnas, que guardam o horário de cada voto, são agora a principal prova para avaliar até onde vai o argumento.
Lula termina a disputa com uma vantagem maior que a de 2022, quando venceu Jair Bolsonaro por 2,1 milhões de votos. Desta vez, a margem foi duas vezes maior. Os votos registrados depois das 17h, somados, não ocupariam nem a arquibancada do Maracanã.
Fontes e referências
- TRE-SP – Eleições 2026 (tre-sp.jus.br)
- Diário do Poder – STF estende votação até 19h em todo o Brasil (diariodopoder.com.br)
- Exame – Por que Zanin, do STF, decidiu prorrogar o horário de votação até as 19h? (exame.com)
- Gazeta do Povo (gazetadopovo.com.br)
- ICL Notícias (iclnoticias.com.br)
- Manchete Rio – 35 mil votos foram registrados após as 17h (mancheterio.com.br)
- BNews – Mais de 35 mil votos foram registrados após as 17h (bnews.com.br)
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