O governo de Jair Bolsonaro não teve grandes casos de corrupção. Entenda os motivos.

A narrativa de gestão imune a desvios ruiu diante do desmonte de mecanismos de fiscalização, trocas estratégicas na Polícia Federal, relatórios da Abin e anulação de provas que travavam investigações sobre o clã e seus aliados.

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro (EVARISTO SA / AFP)

O slogan que embalou a retórica oficial ao longo de quatro anos — de que o governo federal estaria livre de corrupção — confronta-se com um rastro documentado de interferências institucionais, cooptação de agências de inteligência e manobras processuais. Longe de significar ausência de irregularidades, a aparente calmaria em determinados inquéritos decorreu de uma engrenagem deliberada de blindagem que desmontou a autonomia de órgãos de fiscalização e neutralizou apurações no nascedouro.

O episódio mais emblemático desse método veio à tona na célebre reunião ministerial de abril de 2020. Na ocasião, o então presidente deixou explícito que não esperaria "foder a família toda ou amigos" para intervir na ponta da linha da segurança pública, ameaçando trocar superintendentes e até o ministro da Justiça caso suas ordens não fossem acatadas. Dois dias depois, o titular da pasta pediu demissão denunciando tentativas reiteradas de aparelhamento político da Polícia Federal no Rio de Janeiro — estado onde tramitavam as investigações mais sensíveis contra seu primogênito.

Essa blindagem ganhou contornos corporativos em diferentes frentes:

  1. Rachadinhas e a loja de chocolates: O inquérito que apurava o recolhimento sistemático de salários de assessores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e a lavagem de dinheiro por meio de aportes fictícios em uma franquia de chocolates foi travado no Judiciário. A anulação de relatórios de inteligência financeira do Coaf e de quebras de sigilo concedidas em primeira instância contou com o apoio de magistrados indicados à Corte com a bênção do próprio grupo investigado, enterrando a denúncia sem julgamento do mérito.
  2. Uso da Abin e da Receita Federal: Investigações posteriores da PF revelaram que a cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Receita Federal foram mobilizadas para produzir relatórios paralelos clandestinos voltados a orientar a defesa jurídica de Flávio Bolsonaro, caçando supostos deslizes de auditores fiscais para desqualificar as provas de enriquecimento ilícito.
  3. Escândalo do INSS e loteamento do Banco Master: A drenagem de bilhões de reais em descontos não autorizados de aposentadorias consolidou-se a partir de normas e brechas regulatórias abertas no período, alimentando uma rede de lobistas, intermediários e operadores com livre trânsito em gabinetes de estatais e fundos de pensão. Paralelamente, a ascensão do Banco Master deu-se amparada na interlocução direta com lideranças do governo e parlamentares, que utilizavam aeronaves privadas e participações societárias para movimentar valores à margem da fiscalização.
  4. Obstrução em crimes de repercussão: No caso Marielle Franco, diligências policiais foram repetidamente tumultuadas por trocas sucessivas de delegados no Rio de Janeiro, pistas falsas plantadas por informantes da milícia e resistência em cruzar dados de milicianos que frequentavam condomínios e círculos sociais próximos ao poder.

A tese de que não houve corrupção sustentou-se, portanto, na máxima de que quem não investiga não encontra. Ao desmantelar os freios e contrapesos da República, silenciar fiscais de carreira e trocar chefias que ousavam aprofundar inquéritos, a administração não eliminou os desvios: apenas construiu um muro de contenção burocrática e judicial para garantir a impunidade dos seus.

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Fontes e referências
  1. The Intercept Brasil (intercept.com.br)
  2. Folha de S.Paulo (www1.folha.uol.com.br)
  3. Polícia Federal (gov.br)
  4. Gaeco/MPRJ (mprj.mp.br)
  5. Supremo Tribunal Federal (portal.stf.jus.br)

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