Hipocrisia do empresariado normaliza o bolsonarismo e arrisca a democracia para manter privilégios bilionários
Ensaio da revista piauí disseca os jantares do PIB com Flávio Bolsonaro, aponta a indiferença de investidores ao histórico de milícias e golpismo e questiona a troca da estabilidade institucional pelo receituário liberal.
Na década de 1920, o controverso escritor e médico francês Louis-Ferdinand Céline propôs em artigo a criação de uma força médico-policial nas indústrias para coibir faltas operárias por enfermidade. Diante da resistência previsível, sentenciou que a tarefa demandava persuasão contínua, pois "o público não quer compreender; quer acreditar".
A cisão entre a fé cega e o discernimento esclarecido ajuda a compreender a divisão política brasileira. Em 2022, cidadãos acamparam em frente a quartéis, oraram e cantaram o hino nacional ao redor de pneus — impulsionados pela crença irrestrita em fraudes eleitorais ou no retorno abstrato de ameaças comunistas. O enigma central de 2026, contudo, reside em outro segmento da sociedade: o círculo restrito daqueles que compreendem perfeitamente os fatos e, justamente por isso, não acreditam em ilusões, mas optaram por desviar o olhar.
Em ensaio analítico de fôlego, a revista piauí examina as engrenagens de conveniência que levam frações expressivas do PIB, do mercado de capitais e da alta burguesia a avalizarem a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto, trocando salvaguardas democráticas por expectativas de reformas econômicas e cortes orçamentários.
A pergunta de Pelicot: o dilema do "como" e não do "quem"
Ao analisar o emblemático caso de Gisèle Pelicot na França, a crítica Parul Sehgal observou que tragédias coletivas e escândalos morais sempre deixam para trás a pergunta óbvia sobre "quem sabia". A formulação verdadeiramente incômoda, no entanto, é como os agentes ao redor se permitiram tolerar o intolerável. O limiar ético é ultrapassado no momento em que se renuncia à linha moral interna descrita por Hannah Arendt — a disposição de prestar contas à própria consciência e dizer: "Daqui não passo".
No caso da dinastia política dos Bolsonaro, o marco moral originário jamais foi retificado:
- Homenagem a Brilhante Ustra: A dedicatória do voto de impeachment em 2016 à memória do coronel reconhecido formalmente pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) como torturador da ditadura militar. O histórico do militar carrega laudos judiciais categóricos pelo desaparecimento de Edgar de Aquino Duarte, pelas sessões de choque contra a família Teles na presença de crianças e pela morte sob espancamento contínuo do jornalista Luiz Eduardo Merlino, de 22 anos.
- Aval explícito: Jamais houve retratação. Flávio classificou a celebração ao torturador como um contraponto legítimo a "heróis de esquerda" e declarou reiteradas vezes que sua candidatura existe para "honrar o legado" do pai.
A aceitação desse legado pela elite financeira configura, na prática, uma escolha moral: a de tolerar a reabilitação da violência de Estado para fugir da pressão fiscal.
O PIB à mesa: o rol de encontros e a complacência corporativa
Uma extensa lista de executivos, investidores, industriais e banqueiros compareceu a jantares reservados e encontros de articulação com o candidato do PL em capitais brasileiras e no exterior:
| NomeSetor de AtuaçãoPerfil / Participação | ||
| Marcelo Kayath | Mercado Financeiro | Apoiador de Lula em 2022 e crítico do liberalismo dogmático, promoveu jantares em Miami e São Paulo após manifestar alarme com a trajetória da dívida pública. |
| André Esteves | Banco de Investimentos (BTG) | Anfitrião de debates corporativos; pontuou que o maior volume de subsídios federais beneficia rentistas e o próprio sistema bancário. |
| Luiz Carlos Trabuco & Milton Maluhy | Setor Bancário | Lideranças institucionais de grandes conglomerados financeiros presentes em rodadas de apresentação. |
| Flávio Rocha & José Galló | Grandes Varejistas | Representantes de redes de consumo de massa simpáticos à flexibilização tributária e trabalhista. |
| Roberto Campos Neto | Banco Central / Finanças | Participação em agendas e aproximações de diálogo econômico com lideranças da oposição. |
| Eduardo Bartolomeo & Richard Gerdau | Mineração e Siderurgia | Executivos de indústrias de base com foco em desregulamentação ambiental e logística. |
A justificativa usual de que "o capital precisa ouvir quem detém expectativa de poder" oculta uma falsa simetria. Ao contrário da atividade jornalística, que entrevista agentes públicos sem conceder-lhes salvo-conduto ético, o beija-mão empresarial opera como um poderoso endosso político e legitimação institucional.
O ecossistema de alianças: dos escândalos do Master às milícias
Ao contrário do argumento de que Flávio Bolsonaro representaria uma versão moderada e negociadora do bolsonarismo, seu entorno histórico expõe uma sucessão ininterrupta de conexões criminais e financeiras:
1. Casos Master e Refit
- Ciro Nogueira: Cotado abertamente pelo candidato para compor sua chapa, o ex-ministro esteve no centro de escândalos por redigir a chamada "Emenda Master" (escrita pelo próprio banco para ampliar limites de garantia do FGC) logo após adquirir uma cobertura de R$ 22 milhões em São Paulo, além de apresentar emendas benéficas ao empresário Ricardo Magro enquanto uma de suas empresas registrava crédito milionário com a família do senador.
2. A bancada fluminense e a perda de aliados
- Cláudio Castro: Lançado inicialmente por Flávio para disputar o Senado, renunciou ao governo estadual sob denúncias de desvios na Operação Catarata e foi declarado inelegível por oito anos pelo TSE após esquema massivo de contratações eleitoreiras em dinheiro vivo.
- Márcio Canella: Substituiu Castro na preferência de Flávio até ser detido pela PF em flagrante com um fuzil em seu veículo durante apuração sobre lavagem de dinheiro do crime organizado em postos de combustível.
- Capitão Nelson e Douglas Ruas: O candidato a governador apoiado pelo clã no Rio é filho do atual prefeito de São Gonçalo, citado nominalmente na CPI das Milícias de 2008 como chefe de grupo paramilitar.
3. Queiroz e Adriano da Nóbrega
- Rachadinha: Relatórios do Coaf e do Ministério Público apontaram repasses de R$ 2 milhões de assessores para as contas de Fabrício Queiroz, que custeava despesas pessoais da família de Flávio com dinheiro em espécie. A anulação judicial posterior do caso deu-se por filigranas formais e vícios processuais, jamais por atestado de inocência no mérito.
- Escritório do Crime: Flávio concedeu moções de aplauso e a Medalha Tiradentes — entregue no cárcere — ao miliciano e matador de aluguel Adriano da Nóbrega logo após o assassinato do vigia Leandro dos Santos Silva. Empregou formalmente a mãe e a esposa do pistoleiro em seu gabinete parlamentar por mais de uma década, dispensando-as apenas às vésperas de assumir a vaga no Senado.
O risco democrático como variável descartável
O traço mais alarmante da adesão da elite econômica à candidatura do PL é a normalização da tutela política e da ruptura das instituições.
Flávio tratou os atos de depredação dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 como "crime impossível" e "golpe da Disney", defendeu o indulto irrestrito aos condenados pela tentativa de golpe de Estado e aventou publicamente o emprego da força contra decisões do Supremo Tribunal Federal. No plano internacional, sua campanha cerca-se de articuladores que defenderam abertamente tarifas punitivas norte-americanas contra a economia nacional e a cessão desregulamentada de terras raras brasileiras.
O ensaio conclui que o dilema posto em 2026 não é um mero embate entre programas econômicos. Enquanto desajustes fiscais são reversíveis no curso dos ciclos democráticos, experiências autoritárias deixam cicatrizes institucionais duradouras. Ao se sentar à mesa com a candidatura de Flávio sob a desculpa de conter os gastos do Estado, o empresariado esclarecido deixa claro que não age por ignorância, mas por deliberação: no cálculo entre a prudência democrática e o ajuste fiscal, optou por transigir com o autoritarismo.
Fontes e referências
- Revista Piauí (piaui.uol.com.br)