"Rouba, mas faz" revisitado: por que o sucesso nas urnas de políticos enrolados na Justiça desmente a cruzada moral do eleitor brasileiro
Embora o discurso anticorrupção lidere as pesquisas de intenção, a consagração contínua de réus, investigados e ex-presidiários para o Congresso e Executivos estaduais prova que o pragmatismo e a fidelidade partidária falam mais alto na hora de votar.
Pergunte a qualquer eleitor na fila de um cartório ou em uma pesquisa de opinião pública qual é a maior praga do país, e a resposta virá na ponta da língua: a corrupção. A indignação moral contra desvios de conduta na administração pública é uma espécie de consenso retórico nacional, alimentado por décadas de coberturas midiáticas, operações policiais espetaculares e campanhas que prometem varrer os desonestos de Brasília. Contudo, entre o que o cidadão prega em abstrato e a tecla verde da urna eletrônica, abre-se um abismo. Quando os dados eleitorais e os perfis das bancadas eleitas são postos à mesa, a conclusão é incontornável:
o brasileiro não é, na prática, contra a corrupção.
O teste definitivo dessa incoerência reside na facilidade com que figuras com prontuários judiciais extensos obtêm votações consagradoras pleito após pleito. O próprio cenário da disputa presidencial sintetiza essa realidade: milhões de votos são depositados em candidaturas que convivem com inquéritos por desvios na Previdência, enriquecimento atípico em gabinetes legislativos, condenações anuladas por manobras processuais ou proximidade com operadores financeiros investigados pela Polícia Federal. Se a lisura ética fosse uma cláusula pétrea para o eleitor, tais nomes sequer ultrapassariam a barreira das convenções partidárias.
O fenômeno se torna ainda mais evidente no Poder Legislativo e nos governos estaduais. Lideranças do chamado Centrão e caciques regionais historicamente denunciados por fraudes em licitações de saúde, transporte e obras de infraestrutura figuram com frequência entre os puxadores de votos para a Câmara dos Deputados e o Senado. Em estados como o Rio de Janeiro, governadores e parlamentares foram eleitos e reeleitos mesmo enquanto esquemas criminosos e operações de desvio de verbas públicas já eram de domínio público. Políticos tornados réus por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e formação de quadrilha continuam conquistando mandatos expressivos, contando com a condescendência de eleitores que relativizam seus delitos.
Essa contradição sustenta-se em dois pilares sociopolíticos bem conhecidos:
- A moral seletiva da polarização: O crime só indigna quando é cometido pelo adversário ideológico. Se a denúncia atinge o rival, trata-se de roubalheira incontestável; se atinge o aliado ou a figura com a qual o eleitor se identifica, vira instantaneamente "armação da Justiça", "perseguição da imprensa" ou "complô das elites". A culpa do político de estimação é perdoada ou justificada sob o pretexto de combater um mal supostamente maior.
- A sobrevivência do fisiologismo pragmático: Para grande parte do eleitorado, o acesso concreto a benefícios imediatos — a emenda parlamentar que pavimentou a rua, a entrega da ambulância, a liberação de cargos locais ou o repasse de um programa de transferência de renda — pesa infinitamente mais na decisão do voto do que a legalidade das verbas movimentadas nos bastidores do poder.
O apego do brasileiro à causa anticorrupção funciona como um escudo de conveniência discursiva. Ao continuar blindando e reconduzindo às principais cadeiras da República personagens imersos em escândalos criminais, o eleitorado nacional demonstra que tolera perfeitamente o desvio ético, desde que a contrapartida partidária, ideológica ou material atenda às suas expectativas imediatas.
Fontes e referências
- Núcleo de Estudos da Violência e Cidadania (USP) (nevusp.org)
- Ipec / Datafolha (datafolha.folha.uol.com.br)
- Congresso em Foco (congressoemfoco.com.br)
- Transparência Internacional - Brasil (transparenciainternacional.org.br)
- Tribunal Superior Eleitoral (divulgacandcontas.tse.jus.br)