Economia em duas velocidades: por que milhares de empresas fecham as portas na Argentina de Javier Milei
Enquanto setores exportadores de energia, mineração e agronegócio atraem dólares, indústria nacional e comércio amargam queda no consumo, desemprego e onda de falências.
A Argentina vive um contraste econômico sob o governo de Javier Milei: de um lado, setores voltados à exportação operam em expansão; de outro, o mercado interno enfrenta retração acentuada. Esse abismo tem alimentado o debate sobre um país que caminha em "duas velocidades", com um polo impulsionado por dólares e outro estrangulado pela perda do poder de compra e pelo encerramento em massa de empresas locais.
Os dois lados da balança econômica argentina
O cenário produtivo argentino se dividiu com nitidez entre segmentos voltados ao comércio exterior e negócios focados no consumidor doméstico:
- Economia exportadora (em expansão): Os setores de energia, mineração (com destaque para o lítio, petróleo e gás) e o agronegócio registram forte entrada de investimentos estrangeiros e divisas internacionais, operando em ritmo de expansão.
- Economia doméstica (em retração): Comércios varejistas e indústrias manufatureiras locais, que dependem diretamente dos salários e do consumo interno, enfrentam queda de faturamento e cortes drásticos de custos.
Mais de 30 mil empresas fecharam as portas
Segundo estimativas de centros econômicos argentinos, mais de 30 mil empresas encerraram as atividades durante a gestão Milei — o correspondente a cerca de 6% do total do país.
O governo contesta o peso desses números, sustentando que a maior parte corresponde a micro e pequenos empreendimentos de baixo impacto na geração agregada de valor. Especialistas e entidades setoriais, no entanto, alertam que a manufatura e o comércio de proximidade respondem pela maior fatia dos postos formais de trabalho.
"A indústria vive uma situação crítica, com dificuldades de financiamento e uma elevada carga tributária, enquanto enfrenta a concorrência direta de importados mais baratos."
— União Industrial Argentina (UIA)
Indicadores macroeconômicos vs. realidade social
A divergência entre o ajuste fiscal do governo e a realidade cotidiana da população aparece nos indicadores oficiais medidos pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC):
| Indicador | Situação / Variação | Impacto Prático |
| PIB | Crescimento de 2,2% no 1º semestre | Impulsionado quase exclusivamente pelo setor externo |
| Superávit Fiscal | Contas públicas no azul e alta nas reservas cambiais | Resultado de cortes severos no gasto público e obras |
| Inflação Anual | Recuou de 211,4% para cerca de 33% | Desaceleração relevante, mas os salários não acompanharam |
| Pobreza | Atingiu 32,3% da população | Cerca de 1 em cada 3 argentinos vive abaixo da linha de pobreza |
| Desemprego | Próximo de 7,9% | Maior patamar registrado nos últimos cinco anos |
| Vendas em Supermercados | Queda de 2,8% no 1º semestre | Consumidores priorizam itens essenciais e cortam carnes nobres |
O colapso do poder de compra no cotidiano
Com o avanço do custo de vida e o congelamento relativo dos vencimentos, levantamentos apontam que cerca de um quarto dos tomadores de crédito não consegue honrar suas dívidas. A proliferação de múltiplos empregos informais sem proteção trabalhista tornou-se uma estratégia recorrente de sobrevivência nas grandes cidades.
O encerramento de negócios tradicionais, como restaurantes e lojas de calçados, ilustra o efeito cascata da contração da renda familiar: com o salário comprometido antes da metade do mês, o consumo cai, o endividamento cresce e o comércio de rua perde sustentação.
A recente desaceleração do ritmo econômico reacendeu o sinal de alerta sobre o risco de uma recessão técnica, colocando a sustentabilidade do modelo liberal de Milei no centro das atenções políticas antes das próximas eleições presidenciais no país.
Fontes e referências
- Youtube BBC News (youtube.com)