Economia em duas velocidades: por que milhares de empresas fecham as portas na Argentina de Javier Milei

Enquanto setores exportadores de energia, mineração e agronegócio atraem dólares, indústria nacional e comércio amargam queda no consumo, desemprego e onda de falências.

Javier Milei
Javier Milei (Mariana Nedelcu/Reuters)
BBC News

A Argentina vive um contraste econômico sob o governo de Javier Milei: de um lado, setores voltados à exportação operam em expansão; de outro, o mercado interno enfrenta retração acentuada. Esse abismo tem alimentado o debate sobre um país que caminha em "duas velocidades", com um polo impulsionado por dólares e outro estrangulado pela perda do poder de compra e pelo encerramento em massa de empresas locais.

Os dois lados da balança econômica argentina

O cenário produtivo argentino se dividiu com nitidez entre segmentos voltados ao comércio exterior e negócios focados no consumidor doméstico:

  • Economia exportadora (em expansão): Os setores de energia, mineração (com destaque para o lítio, petróleo e gás) e o agronegócio registram forte entrada de investimentos estrangeiros e divisas internacionais, operando em ritmo de expansão.
  • Economia doméstica (em retração): Comércios varejistas e indústrias manufatureiras locais, que dependem diretamente dos salários e do consumo interno, enfrentam queda de faturamento e cortes drásticos de custos.

Mais de 30 mil empresas fecharam as portas

Segundo estimativas de centros econômicos argentinos, mais de 30 mil empresas encerraram as atividades durante a gestão Milei — o correspondente a cerca de 6% do total do país.

O governo contesta o peso desses números, sustentando que a maior parte corresponde a micro e pequenos empreendimentos de baixo impacto na geração agregada de valor. Especialistas e entidades setoriais, no entanto, alertam que a manufatura e o comércio de proximidade respondem pela maior fatia dos postos formais de trabalho.

"A indústria vive uma situação crítica, com dificuldades de financiamento e uma elevada carga tributária, enquanto enfrenta a concorrência direta de importados mais baratos."
— União Industrial Argentina (UIA)

Indicadores macroeconômicos vs. realidade social

A divergência entre o ajuste fiscal do governo e a realidade cotidiana da população aparece nos indicadores oficiais medidos pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC):

IndicadorSituação / VariaçãoImpacto Prático
PIBCrescimento de 2,2% no 1º semestreImpulsionado quase exclusivamente pelo setor externo
Superávit FiscalContas públicas no azul e alta nas reservas cambiaisResultado de cortes severos no gasto público e obras
Inflação AnualRecuou de 211,4% para cerca de 33%Desaceleração relevante, mas os salários não acompanharam
PobrezaAtingiu 32,3% da populaçãoCerca de 1 em cada 3 argentinos vive abaixo da linha de pobreza
DesempregoPróximo de 7,9%Maior patamar registrado nos últimos cinco anos
Vendas em SupermercadosQueda de 2,8% no 1º semestreConsumidores priorizam itens essenciais e cortam carnes nobres

O colapso do poder de compra no cotidiano

Com o avanço do custo de vida e o congelamento relativo dos vencimentos, levantamentos apontam que cerca de um quarto dos tomadores de crédito não consegue honrar suas dívidas. A proliferação de múltiplos empregos informais sem proteção trabalhista tornou-se uma estratégia recorrente de sobrevivência nas grandes cidades.

O encerramento de negócios tradicionais, como restaurantes e lojas de calçados, ilustra o efeito cascata da contração da renda familiar: com o salário comprometido antes da metade do mês, o consumo cai, o endividamento cresce e o comércio de rua perde sustentação.

A recente desaceleração do ritmo econômico reacendeu o sinal de alerta sobre o risco de uma recessão técnica, colocando a sustentabilidade do modelo liberal de Milei no centro das atenções políticas antes das próximas eleições presidenciais no país.

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Fontes e referências
  1. Youtube BBC News (youtube.com)

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