Estreito de Ormuz: O motor oculto da inflação global, a crise do refino de diesel é muito mais perigosa que a alta da gasolina
Em análise aprofundada, Átila Iamarino detalha como o bloqueio no Estreito de Ormuz, ataques a refinarias na Rússia e Arábia Saudita e gargalos logísticos expõem a vulnerabilidade do agronegócio e das importações brasileiras.
Embora o consumidor comum sinta o peso dos combustíveis ao abastecer o carro com gasolina ou etanol, o verdadeiro pilar estrutural que dita o custo de vida em escala planetária é o óleo diesel. Em vídeo recente publicado em seu canal, o biólogo e divulgador científico Átila Iamarino dissecou a crise energética global desencadeada pelo fechamento de rotas marítimas estratégicas no Oriente Médio e por bombardeios contra a infraestrutura de refino de duas das maiores potências petrolíferas do mundo: a Rússia e a Arábia Saudita.
A relevância incontornável do diesel reside em sua física e em sua penetração logística. Desenvolvido no fim do século XIX por Rudolf Diesel, o motor de ignição por compressão converte mais da metade da energia do combustível em trabalho útil — o dobro da eficiência dos motores convencionais de ciclo Otto —, enquanto o óleo em si carrega cerca de 10% mais densidade energética por litro do que a gasolina. Essa combinação fez do diesel o insumo obrigatório do transporte pesado: navios cargueiros, locomotivas, caminhões, tratores e colheitadeiras. Na prática, como pontua Iamarino, "come-se diesel indiretamente": a produção de um único quilo de pão, soja ou carne consome dezenas a centenas de mililitros do combustível entre arados, fertilizantes, colheita, refrigeração e frete rodoviário.
O cenário internacional, contudo, entrou em um colapso em cadeia. Nos Estados Unidos, o galão do diesel chegou a dobrar de valor em relação ao ano anterior, obrigando postos a adaptarem seus mostradores. Os motores desse choque geopolítico concentram-se em duas frentes:
- O fechamento definitivo de Ormuz e a extensão ao Mar Vermelho: A escalada militar no Golfo Pérsico paralisou o tráfego naval por onde circulava 20% do petróleo mundial. Tentativas de desvio por oleodutos sauditas passaram a ser bombardeadas por drones e mísseis houthis, que atingiram inclusive a sede da Saudi Aramco e aeroportos regionais.
- A destruição da capacidade de refino russa: Após manobras de Washington para adquirir diesel russo violando sanções financeiras, contraofensivas da Ucrânia contra oleodutos e refinarias derrubaram cerca de um terço da produção de diesel da Rússia, retirando do mercado um dos maiores exportadores globais.
A alta atinge o diesel com mais força do que o petróleo bruto porque este combustível demanda um refino altamente sofisticado, com craqueamento catalítico e hidrotratamento para remoção de enxofre e atendimento a padrões ambientais. Com refinarias na Ásia e no Oriente Médio destruídas ou sobrecarregadas, a margem de refino atingiu picos históricos.
No caso do Brasil, a autossuficiência na extração da bacia do pré-sal não imuniza o país. Como o parque nacional de refino foi historicamente subdimensionado para processar o tipo de óleo extraído e a política adotada a partir de 2016 privilegiou a exportação do óleo cru em detrimento da expansão do refino doméstico, o mercado interno precisa importar entre 20% e 25% de todo o diesel consumido.
Mesmo com a contenção temporária de reajustes pela Petrobras, a pressão externa já incide sobre o custo do frete marítimo internacional, encarecendo fertilizantes importados, bens manufaturados e até a produção de biodiesel e etanol (que dependem de maquinário pesado movido a diesel no campo). Com a aproximação do inverno no hemisfério norte — período em que a calefação residencial demanda derivados semelhantes —, a previsão de analistas é de que o estresse de oferta e os preços inflacionados persistam como uma pressão constante sobre os preços dos alimentos e da cadeia de consumo global.
Fontes e referências
- Valor Econômico (valor.globo.com)
- Folha de S.Paulo / Mercado (www1.folha.uol.com.br)
- EPE - Balanço Energético Nacional (epe.gov.br)
- ANP - Boletim Mensal de Abastecimento (gov.br)