Enzima Pac-Man come plástico como no videogame e ainda esconde um segredo perigoso

Pesquisadores alemães descobriram uma enzima que bactérias usam para comer plástico e que tem a “boca” aberta como o personagem do videogame. A surpresa é que ela também destrói a penicilina, o que acende um alerta sobre bactérias resistentes a antibióticos.

Enzima Pac-Man come plástico como no videogame e ainda esconde um segredo perigoso
(Ciência de Ponta)
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Como os cientistas encontraram a enzima Pac-Man

Tudo começou com um teste simples e demorado. Os pesquisadores enterraram filmes de plástico em terra de floresta e mediram, por mais de um ano, quanto gás carbônico era produzido. Esse gás é como a “respiração” das bactérias: quanto mais elas comem, mais gás soltam.

O resultado variou bastante de um material para outro. Os bioplásticos, feitos para se decompor, sumiram por completo em cerca de 250 a 330 dias. A celulose, que é a matéria do papel, levou uns 80 dias. Já o polietileno de alta densidade, o plástico duro de muitos potes e embalagens, praticamente não foi tocado.

Ao olhar os plásticos no microscópio eletrônico, os cientistas viram algo curioso: furinhos com exatamente o tamanho e o formato de uma bactéria. Era como se elas tivessem cavado túneis, comendo o plástico enquanto avançavam, igual ao Pac-Man atravessando o labirinto.

Por que a enzima ficou com nome de videogame

Para descobrir qual “ferramenta” as bactérias usavam, os pesquisadores extraíram o DNA de todos os micróbios da amostra de terra. Ali encontraram o gene de uma enzima com duas características especiais. A primeira é uma espécie de etiqueta de endereço que manda a enzima para fora da bactéria. A segunda é uma âncora que a mantém presa à superfície dela. Assim, a bactéria fica com a enzima “do lado de fora”, mastigando o plástico ao redor.

Quando os cientistas montaram o modelo 3D da enzima com o AlphaFold, programa de inteligência artificial que prevê o formato das proteínas, veio a imagem que deu o apelido: um centro de reação tão aberto que cabem moléculas gigantes, como as longas correntes que formam o plástico. O próprio pesquisador David Schleheck contou, rindo, que o nome veio do formato e também do comportamento da enzima.

O segredo da enzima Pac-Man que preocupa

A estrutura da enzima lembrava outra família de enzimas, as beta-lactamases. São elas que permitem a algumas bactérias destruir antibióticos como a penicilina, tornando-se resistentes ao remédio. Os cientistas testaram em laboratório e confirmaram: a enzima Pac-Man faz as duas coisas, quebra plástico e destrói penicilina.

Para os pesquisadores, há duas explicações possíveis. A primeira é que as bactérias que vivem no plástico estão desenvolvendo funções duplas, o que dá a elas uma vantagem a mais. A segunda é que a enzima antes servia para combater antibióticos e agora está se especializando em comer plástico, e a resistência seria uma “sobra” da evolução.

Ficha técnica da descoberta

A enzima Pac-Man foi descoberta por pesquisadores da Universidade de Konstanz, na Alemanha, liderados pelo professor David Schleheck, e o estudo saiu na revista The ISME Journal em 2026. Ela é uma esterase, um tipo de enzima que quebra certas ligações químicas, e atua sobre poliésteres e bioplásticos. O formato foi modelado com o AlphaFold, e o teste no solo durou mais de um ano. A enzima não ataca o polietileno de alta densidade, um dos plásticos mais comuns.

Prós e contras da enzima Pac-Man

Prós

  • Mostra que bactérias podem se adaptar para comer plástico mais rápido do que se imaginava, já que o plástico só existe em grande quantidade há uns 50 a 75 anos.
  • O mecanismo da enzima, presa à superfície da bactéria, pode inspirar novas formas de reciclar plástico.
  • A descoberta reforça que bioplásticos de fato somem na natureza, ao contrário dos plásticos comuns.

Contras

  • A enzima não funciona no plástico duro mais comum, o polietileno de alta densidade.
  • Mesmo nos bioplásticos, o processo leva meses.
  • A capacidade de destruir penicilina levanta uma pergunta séria sobre bactérias resistentes a antibióticos no meio do lixo.

Veredito

A enzima Pac-Man não vai limpar os oceanos amanhã, e a parte da penicilina é um lembrete de que a natureza não resolve um problema sem criar outro. Mas é uma daquelas descobertas que mostram a evolução acontecendo em tempo real: em poucas décadas, bactérias já estão aprendendo a comer um material que nem existia há cem anos. Enquanto a ciência não transforma isso em solução, a lição prática é velha conhecida: o melhor plástico continua sendo o que não vira lixo.

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Fontes e referências 6

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