O iPhone Duo dobra, estala e trinca, e a Apple jura que é coisa de poucos

Uma semana depois do lançamento, donos do primeiro dobrável da Apple relatam telas internas rachando na dobradiça, às vezes em poucas horas. A empresa reconheceu o defeito e promete trocar os aparelhos, mas não diz quantos foram afetados nem explica como fica a troca no Brasil, onde o conserto fora

iPhone Duo
iPhone Duo (r/chimchamban)

O vinco quase invisível era o grande orgulho do iPhone Duo. Agora, para alguns donos, a dobra é onde o aparelho racha.

Os relatos começaram no próprio dia do lançamento. Na China, onde o Duo chegou horas antes, apareceram fotos de unidades de demonstração com a tela quebrada. Na Austrália, um comprador contou que o aparelho durou seis horas. Ao mostrar o celular a um amigo, sentiu algo travar na dobradiça, ouviu um estalo e viu o painel rachar. Ele conseguiu trocar o aparelho numa Apple Store no mesmo dia.

Desde então, o fórum do iPhone Duo no Reddit se encheu de casos parecidos, e o problema ganhou apelido nas redes: “Crackgate”. Os sintomas se repetem. A dobradiça endurece, faz um estalo, e surgem trincas, faixas brilhantes ou manchas brancas no meio da tela interna. Um dono relatou que a tela passou a registrar toques que ele não fazia.

A Apple admite, mas não diz quantos

Na segunda-feira (26), a Apple reconheceu o problema em nota enviada a veículos como CNBC, MacRumors e 9to5Mac. A empresa afirmou estar ciente de uma falha que afeta a tela interna de “um pequeno número de unidades” e orientou os afetados a procurar o suporte oficial para trocar o aparelho. Antes disso, a nota fazia questão de dizer que a recepção ao Duo vinha sendo “incrivelmente positiva”.

O que a Apple não disse: quantas unidades foram afetadas, qual é a causa e se mudou algo na fabricação. Ao jornalista Mark Gurman, da Bloomberg, a empresa informou que a maioria dos aparelhos não tem o defeito e que, nos casos afetados, os sinais costumam aparecer logo nos primeiros usos. O site 9to5Mac tinha contado cerca de dez casos diferentes até domingo, e a Bloomberg relatou um volume crescente de reclamações.

O suspeito é a dobradiça

A iFixit, empresa especializada em reparos, desmontou o aparelho e encontrou um ponto de tensão perto de uma barra de suporte dentro da dobradiça, exatamente onde as telas racham. A Apple não comentou a análise. Ironicamente, a mesma iFixit considerou o Duo o dobrável mais fácil de consertar entre os que já testou.

Testes publicados na internet mostram outro lado. Em ensaios de resistência, o aparelho aguentou entre 10 mil e 32 mil ciclos de abertura e fechamento sem falhar. Já o canal JerryRigEverything mostrou que poeira e areia conseguem chegar ao mecanismo da dobradiça e atrapalhar o fechamento, embora as vedações protejam a parte eletrônica.

Analistas comparam o caso ao do Galaxy Fold, da Samsung, que teve o lançamento adiado em 2019 depois de telas quebrarem nas mãos de jornalistas.

E no Brasil?

Aqui está a parte que mais importa para quem gastou R$ 22 mil. Nos Estados Unidos, a troca não exige o AppleCare+, o seguro estendido da Apple. No Brasil, o AppleCare+ nem existe, e a filial brasileira ainda não detalhou como vai tratar o defeito nem confirmou se a troca será gratuita.

O Código de Defesa do Consumidor, porém, protege o comprador. Defeitos de fabricação estão cobertos pela garantia legal, e o consumidor tem 90 dias para reclamar de um problema em produto durável, contados a partir do momento em que o defeito aparece. Depois da reclamação, o fabricante tem 30 dias para resolver. Se não resolver, o consumidor pode exigir a troca, o dinheiro de volta ou um abatimento no preço.

Quem tiver o problema deve fotografar a tela, guardar a nota fiscal e abrir um chamado no suporte da Apple, ou levar o aparelho a uma loja ou

assistência autorizada. Vale anotar o número do protocolo. Mesmo quem comprou pela operadora deve procurar diretamente a Apple.

Prós

  • A Apple reconheceu o defeito em poucos dias e promete trocar os aparelhos afetados.
  • Segundo a empresa, o problema aparece logo nos primeiros usos, ainda dentro da garantia.
  • A iFixit considerou o Duo o dobrável mais fácil de reparar.
  • Fora a tela, as avaliações seguem boas: o vinco é quase invisível, e a bateria durou quase 29 horas em teste de reprodução de vídeo, meia hora a mais que a do Galaxy Z Fold 8.

Contras

  • A Apple não informa quantos aparelhos foram afetados, a causa nem se corrigiu a produção.
  • No Brasil, não há procedimento oficial divulgado para esse defeito.
  • Fora da garantia, a tela interna custa R$ 10.989, metade do preço do aparelho.
  • A dobradiça, o ponto mais celebrado no lançamento, é justamente o principal suspeito.

Veredito

O problema existe, a Apple admite, e a troca está prometida. Mas “um pequeno número de unidades” não é um número, e quem paga R$ 22 mil num celular merece mais do que uma nota vaga. Se você ainda não comprou, espere algumas semanas: a Apple precisa explicar a causa e confirmar se os novos lotes saem corrigidos. Se já comprou, use bastante o aparelho nos primeiros dias, que é quando o defeito costuma aparecer, e não deixe passar o prazo de reclamação. O primeiro dobrável da Apple é bom, mas, por enquanto, ainda é um produto em teste.

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Fontes e referências 6
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