O que foi o Integralismo? Entenda a ascensão, os símbolos e o colapso dos "camisas-verdes" nos anos 1930
Liderada por Plínio Salgado sob o lema "Deus, Pátria e Família", a Ação Integralista Brasileira mobilizou multidões, inspirou-se na estética fascista e ruiu após entrar em rota de colisão com Getúlio Vargas.
Na década de 1930, o Brasil assistiu ao surgimento de uma das maiores mobilizações políticas de massas de sua história: a Ação Integralista Brasileira (AIB). Vestindo fardas verdes, marchando em formação paramilitar e saudando os companheiros com o grito tupi "Anauê!", centenas de milhares de brasileiros se organizaram sob o comando do jornalista e escritor paulista Plínio Salgado.
A trajetória do movimento — que uniu elementos do corporativismo europeu, nacionalismo antiliberal e renovação católica — é tema de produção da Brasil Paralelo, que detalha desde a formulação ideológica do grupo até o seu confronto fatal com o regime de Getúlio Vargas.
A gênese da AIB: crise do café e rejeição ao liberalismo
O surgimento do integralismo em outubro de 1932 foi produto direto das fraturas da Primeira República:
- Colapso oligárquico: O coronelismo e o pacto do "café com leite" geravam desgaste generalizado entre intelectuais, militares e classes médias urbanas.
- Crise de 1929: O colapso da Bolsa de Nova York derrubou as exportações de café, desestruturando a arrecadação pública e alimentando a descrença na ordem liberal e parlamentar.
- A influência europeia: Em 1930, Plínio Salgado viajou à Europa e testemunhou a máquina de mobilização de massas de Benito Mussolini na Itália, enxergando nela o modelo organizativo que faltava para unificar as correntes nacionalistas no Brasil.
- Base de imprensa: Ao retornar, assumiu o jornal A Razão com suporte financeiro do banqueiro Alfredo Egydio de Souza Aranha (fundador do banco que originaria o Itaú), transformando a publicação em polo aglutinador da direita radical e do corporativismo católico.
Em 7 de outubro de 1932, Salgado lançou o Manifesto de Outubro, fundando oficialmente a AIB. O movimento adotou a letra grega sigma ($\Sigma$) como símbolo da "soma das forças da nação", a cor verde como distintivo de igualdade entre militantes e o culto à hierarquia e à autoridade máxima do "chefe nacional".
A doutrina do "Homem Integral" e as correntes internas
O núcleo ideológico da AIB postulava que tanto o liberalismo quanto o comunismo haviam mutilado a condição humana:
- O liberalismo teria reduzido o indivíduo a um ente cívico desprovido de espiritualidade.
- O marxismo o teria transformado em mero instrumento econômico de luta de classes.
Como contraponto, o movimento propunha o "homem integral" (corpo, razão e espírito submetidos a um dever moral superior) e um Estado corporativo em que profissões — e não partidos políticos — indicariam os representantes da sociedade.
Apesar da estética comum inspirada no fascismo italiano, o movimento abrigava tensões profundas entre suas lideranças:
- Plínio Salgado enfatizava a miscigenação como valor nacional, rejeitava o determinismo biológico nazista e defendia um corporativismo de viés católico e espiritual.
- Gustavo Barroso, por outro lado, aproximou-se abertamente da propaganda antissemita europeia, atacando banqueiros e intelectuais judeus e elogiando diretrizes do Terceiro Reich.
- Miguel Reale, futuro jurista de renome, atuava na estruturação conceitual do corporativismo e no diálogo técnico com a doutrina fascista italiana.
A militarização dos militantes também provocou confrontos sangrentos nas ruas com grupos anarquistas e comunistas, como a célebre "Batalha da Praça da Sé", em São Paulo (1934).
Do flerte ao golpe: a colisão com Getúlio Vargas
Inicialmente, Vargas e os integralistas mantiveram uma relação de conveniência baseada no anticomunismo compartilhado e na centralização do poder. Essa proximidade atingiu o ápice com a forja do Plano Cohen em 1937 — documento falso atribuído aos comunistas e redigido pelo integralista Olímpio Mourão Filho, utilizado por Vargas como pretexto para instaurar a ditadura do Estado Novo.
No entanto, a consolidação do regime fechado revelou-se uma armadilha para a AIB:
- Extinção dos partidos: Em dezembro de 1937, Vargas proibiu todas as agremiações políticas, incluindo a AIB, recusando-se a dividir o poder estatal com uma organização paramilitar autônoma.
- Levante Integralista (1938): Frustrados e desarticulados, membros da AIB aliaram-se a dissidentes militares e armaram um ataque ao Palácio Guanabara na tentativa de depor Vargas pela força das armas. O ataque fracassou militarmente.
- Repressão e exílio: O episódio desencadeou o fechamento forçado de milhares de núcleos do movimento e a prisão de lideranças. Plínio Salgado foi banido para Portugal em 1939, onde permaneceu até o fim da Segunda Guerra Mundial.
Desdobramentos e sobrevida política
Com a redemocratização de 1945, Salgado retornou ao país e fundou o Partido de Representação Popular (PRP), adaptando parte do ideário nacionalista ao jogo parlamentar tradicional e abandonando as fardas e a estética paramilitar dos anos 1930. Ele chegou a concorrer à presidência em 1955 e atuou como deputado federal até a década de 1970.
Personagens ligados ao movimento deixaram marcas duradouras na história brasileira: Olímpio Mourão Filho, autor do Plano Cohen, seria em março de 1964 o general que deflagrou o deslocamento de tropas de Minas Gerais que culminou na queda de João Goulart.
Conteúdo baseado no documentário histórico da Brasil Paralelo:
Fontes e referências
- Brasil Paralelo (brasilparalelo.com.br)