Anvisa aprova Wegovy em comprimido, o primeiro GLP-1 oral para obesidade no Brasil

Versão diária da semaglutida da Novo Nordisk usa uma dose cerca de dez vezes maior que a da caneta e uma “molécula escudo” para atravessar o estômago. O remédio deve chegar às farmácias no próximo trimestre, ainda sem preço definido.

Anvisa aprova Wegovy em comprimido, o primeiro GLP-1 oral para obesidade no Brasil
(Ciência de Ponta)
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Fazer um hormônio passar pelo estômago sem ser destruído é um problema que a farmacologia tenta resolver há décadas. O estômago tem ácido e enzimas feitos exatamente para desmontar proteínas e peptídeos, e é por isso que remédios desse tipo, como a insulina, costumam ser injetados. Nesta quarta-feira (4), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um medicamento que resolve esse problema: o Wegovy em comprimidos, à base de semaglutida, o primeiro remédio da classe GLP-1 em versão oral aprovado no Brasil especificamente para tratar obesidade.

O registro foi publicado no Diário Oficial da União na Resolução-RE nº 4.249/2026, pouco mais de nove meses depois de a Novo Nordisk entrar com o pedido, em 30 de janeiro.

Para quem é

O comprimido é indicado para adultos com obesidade (IMC a partir de 30) ou com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) que tenham pelo menos uma doença relacionada ao peso. Assim como a caneta, ele exige receita médica e deve ser usado junto com uma dieta de menos calorias e com atividade física. A Anvisa também prevê a possibilidade de trocar entre comprimido e injeção, quando houver indicação médica.

Por dentro do comprimido

Comparar as doses ajuda a entender o desafio. A caneta Wegovy usa 2,4 mg de semaglutida por semana. O comprimido chega a 25 mg por dia. A diferença existe porque a maior parte da substância é degradada no sistema digestivo, e só uma pequena fração chega ao sangue.

Para que essa fração seja suficiente, a semaglutida oral usa um potencializador de absorção chamado SNAC, a mesma tecnologia do Rybelsus, comprimido para diabetes que já é vendido no país. A ideia é que o SNAC crie, por alguns minutos, uma pequena região menos ácida no estômago e facilite a passagem da molécula para o sangue. É engenhoso, mas exige regras de uso bem rígidas:

  • tomar em jejum, logo ao acordar;
  • usar pouca água, no máximo cerca de meio copo;
  • esperar cerca de 30 minutos antes de comer ou tomar outros remédios.

A dose começa em 1,5 mg e aumenta gradualmente até 25 mg. Essa subida lenta ajuda o organismo a se adaptar aos efeitos gastrointestinais, como náusea, que são os mais comuns da classe.

Quanto funciona

A aprovação se baseou principalmente no estudo de fase 3 OASIS 4, que acompanhou 307 adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes, por 64 semanas. A perda média de peso foi de 13,6%, contra cerca de 2% no grupo que recebeu placebo. Entre os participantes que seguiram o tratamento corretamente até o fim, a perda média chegou a 16,6%.

Uma observação de quem lê estudos clínicos: os dois números estão corretos, mas medem coisas diferentes. O de 13,6% inclui quem interrompeu o tratamento ou não seguiu as regras, e por isso fica mais perto do que acontece na vida real. O de 16,6% mostra o efeito em condições ideais. Na prática, o resultado vai depender muito de a pessoa conseguir manter a rotina de jejum todos os dias.

Caneta, comprimido e o concorrente que vem por aí

Wegovy canetaWegovy comprimidoOrforgliprona (Eli Lilly)


Tipo de moléculaPeptídeoPeptídeo + SNACMolécula pequena, não peptídica
Frequência1 vez por semana1 vez por dia1 vez por dia
Restrições de usoAplicação subcutâneaJejum, pouca água e espera de 30 minSem restrições de horário ou comida
Situação no BrasilAprovada e à vendaAprovada hojeEm análise na Anvisa

A orforgliprona, da Eli Lilly, já foi aprovada nos Estados Unidos e funciona de outro jeito. Ela não é um peptídeo que precisa de proteção no estômago, e sim uma molécula pequena que ativa o mesmo receptor. Por isso, pode ser tomada a qualquer hora, sem jejum, e é mais fácil de produzir em grande escala. Em compensação, levou a uma perda de peso média um pouco menor nos estudos. É o equilíbrio clássico entre o que funciona melhor e o que é mais fácil de usar.

A pergunta que falta responder: quanto vai custar?

A Novo Nordisk ainda não definiu o preço no Brasil, que depende da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. A previsão é de que o comprimido chegue às farmácias no próximo trimestre. Nos EUA, as doses mais altas custam US$ 299 por mês no programa de venda direta ao consumidor.

O mercado brasileiro, porém, mudou em 2026. Com o fim da patente da semaglutida no país, a Anvisa já aprovou versões sintéticas injetáveis feitas por laboratórios nacionais, como o Ozivy, da EMS, registrado em maio. Ou seja, o comprimido vai chegar a um mercado com mais concorrência do que a caneta original enfrentou.

O que muda, de fato

A principal novidade não é que o comprimido emagrece mais. Ele não emagrece mais, e funciona de forma parecida com a injeção. A novidade é a escolha. Muitas pessoas evitam o tratamento por medo de agulha, dificuldade de guardar a caneta na geladeira ou incômodo com a aplicação. Para elas, poder escolher entre um comprimido por dia e uma injeção por semana pode decidir se o tratamento começa ou não.

A obesidade continua sendo uma doença crônica, e os estudos mostram que parte do peso tende a voltar quando o remédio é suspenso. O comprimido não muda isso. Ele amplia as opções de tratamento, mas não dispensa o acompanhamento médico.

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Fontes e referências 6

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