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Democracia americana? Quem tem mais votos nem sempre ganha, e os mapas eleitorais são redesenhados para isso

Nas eleições desta terça (3), eleitores de nove estados votam em distritos redesenhados para favorecer um partido. O Colégio Eleitoral já deu a Presidência a quem teve menos votos cinco vezes, e 4 milhões de americanos não podem votar por causa de condenações criminais.

Democracia americana? Quem tem mais votos nem sempre ganha, e os mapas eleitorais são redesenhados para isso
(Nexo Fatos)
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Nesta terça-feira, um eleitor democrata de Houston chega à cabine para escolher seu deputado num distrito que não existia dois anos atrás. A linha que separa seu bairro do vizinho foi traçada no verão de 2025 pelo Legislativo do Texas, a pedido de Donald Trump, com um objetivo declarado: dar ao Partido Republicano até cinco cadeiras a mais na Câmara dos Representantes. O voto dele vale o mesmo que o de qualquer outro americano. O peso dele, não. Nas eleições de meio de mandato de 2026, nove estados votam em mapas redesenhados fora do calendário normal, algo que não se via desde o século 19.

O mapa que escolhe o eleitor

Nos Estados Unidos, os distritos para a Câmara são redesenhados pelos próprios políticos de cada estado. A manobra tem nome, gerrymandering, e técnica conhecida: concentrar os eleitores do adversário em poucos distritos, onde ele vence com sobra e desperdiça votos, ou espalhá-los por muitos distritos, onde viram minoria em todos. O resultado é que o político escolhe o eleitor antes de o eleitor escolher o político.

Normalmente, o redesenho acontece uma vez a cada dez anos, depois do censo. Desta vez, o Texas abriu a disputa no meio da década, e outros estados controlados por republicanos seguiram: Missouri, Carolina do Norte, Ohio e Flórida, que buscou mais quatro cadeiras. Na Carolina do Norte, os legisladores admitiram que o objetivo era aumentar o número de eleitores republicanos num distrito específico, o único da região ocupado por um democrata.

Os democratas responderam com a mesma arma. Em novembro de 2025, os eleitores da Califórnia aprovaram uma proposta do governador Gavin Newsom que suspendeu temporariamente a comissão independente do estado e permitiu ao Legislativo, de maioria democrata, desenhar um mapa com até cinco cadeiras a mais para o partido. Virgínia e Maryland tentaram o mesmo e não conseguiram.

O caminho foi aberto pela Suprema Corte. Em 2019, ela decidiu que a Justiça federal não pode barrar mapas desenhados para favorecer um partido. Em abril de 2026, no caso Louisiana contra Callais, restringiu a principal ferramenta usada para contestar mapas que diluem o voto de eleitores negros e latinos. A juíza Elena Kagan, que votou contra, chamou a decisão de capítulo final da “demolição” da Lei dos Direitos de Voto de 1965.

Quando a maioria perde a Casa

O efeito já foi medido nas urnas. Em 2012, depois de os republicanos redesenharem os mapas em vários estados, os candidatos democratas à Câmara receberam 1,4 milhão de votos a mais que os republicanos em todo o país. Os republicanos ficaram com 234 cadeiras, e os democratas, com 201. Segundo análise do Cook Political Report, o partido teve 49% dos votos e 54% das cadeiras.

O redesenho não explica sozinho a diferença. Os democratas também concentram seus eleitores nas grandes cidades, o que desperdiça votos mesmo em mapas neutros. Mas a combinação tornou possível algo que, numa eleição proporcional, seria impossível: a minoria dos votos virar maioria do poder.

O mais votado que não toma posse

Na eleição para presidente, a distorção tem outra origem. Os americanos não escolhem o presidente diretamente, mas delegados de cada estado no Colégio Eleitoral, e quase todos os estados entregam todos os delegados a quem vence ali, mesmo que por um voto.

Cinco vezes na história, o candidato com mais votos no país perdeu a Presidência. Em 2000, Al Gore teve cerca de 540 mil votos a mais que George W. Bush, mas perdeu a Flórida por 537 votos, numa recontagem interrompida pela Suprema Corte, e com ela a eleição. Em 2016, Hillary Clinton recebeu quase 2,9 milhões de votos a mais que Donald Trump e perdeu no Colégio Eleitoral por 304 a 227. Cerca de 79 mil votos em três estados, Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, decidiram o resultado.

Nesse caso, não há manobra de ocasião. O Colégio Eleitoral está na Constituição desde 1787, e seus defensores argumentam que ele obriga os candidatos a buscar votos em estados diferentes, e não só nos mais populosos. Para mudá-lo, seria preciso uma emenda constitucional, aprovada por dois terços do Congresso e três quartos dos estados.

Os que nem chegam à urna

Há ainda quem fique de fora antes de qualquer conta. Segundo o Sentencing Project, organização que estuda o sistema penal americano, 48 estados proíbem pessoas condenadas por crimes graves de votar, e cerca de 4 milhões de americanos estavam impedidos de votar na eleição de 2024 por esse motivo. A maioria já está fora da prisão. A Flórida lidera em números absolutos, com mais de 961 mil pessoas barradas, muitas porque não conseguem pagar multas e custas judiciais. Entre os negros, a taxa de exclusão é mais de três vezes maior que no resto da população, e muitas dessas leis datam do período posterior à abolição da escravidão.

Um sistema que todos usam e ninguém desmonta

A explicação mais desconfortável é que as manobras sobrevivem porque servem a quem está no poder no momento. Os republicanos redesenharam o Texas, os democratas responderam na Califórnia, e cada lado acusa o outro de manipulação enquanto faz o mesmo onde pode. Propostas para criar comissões independentes em todo o país ou para eleger o presidente pelo voto direto aparecem a cada ciclo e morrem no Congresso.

Ainda assim, as manobras têm limite. Pesquisas desta reta final mostram que parte dos distritos redesenhados para ser seguros para os republicanos voltou a ficar competitiva, por causa da impopularidade do presidente. Quando a onda é grande, nenhum mapa segura.

Nesta terça, os americanos votam com a convicção de quem exporta a democracia para o mundo. Só que, em boa parte do país, o desenho do mapa decidiu o placar antes de o primeiro eleitor chegar à urna.

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Fontes e referências 10
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