Do tigrinho para o carrinho: proibição das bets faz consumo de alimentos crescer 6,5% nos supermercados, aponta Abras

Levantamento mostra salto imediato na compra de itens da cesta básica em todas as regiões após publicação de Medida Provisória; Banco Central registra queda de até 10% nas transações via Pix e devolução de R$ 1,3 bilhão aos apostadores.

Aumento do consumo
Aumento do consumo (NMS Brasil)

O dinheiro que antes escorria pelos aplicativos de apostas esportivas e cassinos virtuais começou a retornar de forma imediata para a despensa das famílias brasileiras. De acordo com levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a proibição das plataformas de apostas de quota fixa — as chamadas bets —, instituída pela Medida Provisória nº 1.394/2026, provocou um crescimento nacional de 6,5% nas vendas do varejo alimentar logo na primeira semana de vigência da medida (5 a 11 de outubro), mantendo alta expressiva de 6,3% na semana subsequente (12 a 18 de outubro), em comparação com o mesmo período do ano anterior.

A expansão foi sentida em todas as modalidades do setor — de hipermercados e atacarejos a mercearias de bairro — e concentrou-se prioritariamente em itens essenciais da cesta básica, como arroz, feijão, óleo de soja, macarrão, café e proteínas.

A correlação entre o fim das apostas online e o alívio no orçamento doméstico é reforçada pelas estatísticas oficiais do sistema financeiro. Dados do Banco Central do Brasil revelam que o volume total de transações via Pix no país caiu 10% imediatamente após o bloqueio das plataformas, estabilizando-se posteriormente em uma redução estrutural de 7%. Além de estancar a drenagem diária da renda dos trabalhadores e beneficiários de programas sociais, a determinação governamental obrigou as operadoras a devolverem mais de R$ 1,3 bilhão que estavam retidos nas carteiras virtuais dos apostadores, injetando liquidez direta na economia real.

Antes da proibição, estudos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimavam que o avanço descontrolado das bets e o consequente endividamento das famílias haviam retirado cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026.

Crescimento das Vendas em Supermercados após o Bloqueio das Bets (Dados Abras)

Região / Recorte Geográfico1ª Semana Pós-Proibição (5 a 11/out)2ª Semana Pós-Proibição (12 a 18/out)
Região Sul+10,6%+9,0%
Minas Gerais, Espírito Santo e Interior do RJ+10,6%+7,1%
Região Nordeste+6,5%+4,5%
Interior de São Paulo+5,6%+5,6%
Grande Rio de Janeiro+4,0%+6,0%
Região Centro-Oeste+3,6%+3,5%
Grande São Paulo+1,2%+5,5%
Média Nacional (Brasil)+6,5%+6,3%


Reação do setor de apostas

Representantes das casas de apostas tentaram contestar a relação direta entre o bloqueio e o avanço do varejo. Em nota técnica, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) classificou o cruzamento de dados da Abras como "estatística de ocasião", argumentando que o aumento nas compras de supermercado estaria atrelado a outros fatores macroeconômicos, como o aquecimento do mercado de trabalho, lotes de restituição do Imposto de Renda e reajustes no Bolsa Família. Para os economistas do setor supermercadista, contudo, a velocidade da retomada nas gôndolas e a coincidência exata com a queda abrupta de transferências via Pix não deixam dúvidas sobre o redirecionamento imediato da renda popular da especulação predatória para a segurança alimentar.

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