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Os EUA dos dois extremos: 1% detém um terço da riqueza enquanto trabalhadores passam a morar no carro

A renda mediana bateu recorde em 2025, mas a fatia do topo cresce e a falta de moradia segue 27% acima de 2013. Em Los Angeles e Miami, contagens oficiais encontram cada vez mais gente com emprego vivendo dentro de veículos.

Moradores de rua em Los Angeles
Moradores de rua em Los Angeles (Macamp)

Em números

  • 32,5% de toda a riqueza das famílias americanas está nas mãos do 1% mais rico (Federal Reserve, 2º trimestre de 2026).
  • 2,3% é a fatia da metade mais pobre da população.
  • US$ 87.460 foi a renda mediana das famílias em 2025, a maior desde 1967 (Census Bureau).
  • 745.652 pessoas estavam em situação de rua numa única noite de janeiro de 2025 (HUD, Departamento de Habitação).
  • 27% foi o aumento da população sem moradia entre 2013 e 2025.

Os Estados Unidos vivem dois movimentos ao mesmo tempo. No topo, a riqueza se concentra. Na base, cresce o número de pessoas que, mesmo trabalhando, não conseguem pagar aluguel e passam a dormir no carro. Os dados oficiais mostram os dois lados. Eles não provam que um causa o outro, mas descrevem o mesmo país.

O topo ficou maior

Segundo as Contas Financeiras Distributivas do Federal Reserve, o banco central americano, o 1% mais rico detinha 32,5% do patrimônio líquido das famílias no segundo trimestre de 2026. Um ano antes, no terceiro trimestre de 2025, eram 31,5%. Em dinheiro, a fatia do topo soma cerca de US$ 60 trilhões, segundo cálculos feitos com base nos mesmos dados. A metade mais pobre, com cerca de 66 milhões de famílias, fica com 2,3%, algo em torno de US$ 4,3 trilhões.

A concentração é ainda maior nos ativos financeiros: o 1% mais rico tem 36,5% deles. O motivo é a composição da riqueza. Os 10% mais ricos guardam a maior parte do patrimônio em ações e empresas, e detêm cerca de 88% de todas as ações e fundos do país. Quando a bolsa sobe, o topo enriquece mais rápido.

A renda subiu, mas não para todos igual

Os números de renda, que medem o que as famílias ganham por ano, contam uma história menos dramática. O Census Bureau, órgão oficial de estatística, informou que a renda mediana das famílias chegou a US$ 87.460 em 2025, alta de 2,6% sobre o ano anterior e o maior valor da série iniciada em 1967. A taxa oficial de pobreza caiu para 10,2%.

Mas a distância entre os extremos não diminuiu. O índice de Gini, que mede a desigualdade de renda, ficou estável. A renda das famílias no grupo dos 10% mais ricos cresceu 1,7%. A dos 10% mais pobres não teve variação significativa. Depois de descontados impostos e benefícios, a desigualdade é 8,7% menor, o que mostra o peso das transferências do governo para quem está embaixo.

Sem casa, mas com trabalho

A contagem nacional do HUD registrou 745.652 pessoas em situação de rua numa noite de janeiro de 2025. É o primeiro recuo desde 2016, de 3,3% em relação a 2024, mas o número continua 27% acima do de 2013. Do total, 266.320 estavam sem nenhum abrigo. Dois recordes chamam atenção: o de pessoas sozinhas sem moradia, que chegou a 515.286, e o de situação de rua crônica, de 155.750.

A contagem nacional não separa quantas dessas pessoas vivem em veículos. Os dados locais ajudam a enxergar esse grupo. Em Los Angeles, um estudo baseado na contagem oficial mostrou que os adultos que moram em carros, vans e trailers têm um perfil diferente de quem dorme na calçada ou em barracas: são mais frequentemente mulheres, mais velhos, empregados e com animais de estimação, e menos associados a doença mental ou uso de drogas. Os pesquisadores interpretam isso como sinal de que essas pessoas perderam a moradia há menos tempo e por razões econômicas.

Em Miami-Dade, a contagem de 2026 encontrou 1.089 pessoas dormindo ao relento e um aumento de pessoas vivendo dentro de carros em bairros residenciais. Segundo o Homeless Trust, órgão que coordena os serviços no condado, entre elas estão trabalhadores com emprego fixo, idosos, mais mulheres e famílias inteiras. Alguns pagam academia apenas para ter onde tomar banho. Numa das rondas noturnas, as equipes encontraram uma família de quatro pessoas, com uma criança de 6 anos, vivendo num carro em Hialeah.

Há um limite nesses números. As contagens são feitas numa única noite de inverno e deixam de fora quem dorme no sofá de parentes, em motéis pagos do próprio bolso ou em hospitais e prisões. Em Los Angeles, a Câmara Municipal pediu revisão da contagem de 2026 por suspeita de erros em algumas regiões.

Contraponto

Há divergência sobre como interpretar os dados de moradia. O governo Trump atribui o aumento de longo prazo à política conhecida como “Housing First”, que prioriza dar moradia antes de exigir tratamento ou emprego. O secretário de Habitação, Scott Turner, disse que essa política fracassou e que o HUD vai direcionar os programas para recuperação e autossuficiência. O próprio HUD atribuiu a queda de 2025 a reduções nas chamadas cidades-santuário.

Organizações do setor contestam essa leitura. Para elas, os programas de moradia funcionam quando têm recursos suficientes, e a demanda continua alta: em 2024, cerca de 17.500 pessoas por semana procuraram ajuda pela primeira vez. Em Los Angeles, a agência responsável pelos serviços atribuiu a desaceleração da melhora ao corte de subsídios temporários de aluguel, que deixou cerca de 5 mil pessoas a menos com moradia permanente.

Sobre a riqueza, economistas lembram que a concentração medida pelo Fed acompanha de perto o mercado de ações. Uma queda forte na bolsa reduziria a fatia do topo sem melhorar a situação de quem está embaixo.

O que observar

O próximo relatório nacional do HUD, com a contagem de janeiro de 2026, vai mostrar se a queda de 2025 se manteve. O resultado da revisão da contagem de Los Angeles também pode mudar a leitura sobre a cidade com a maior população em veículos do país. No topo, os próximos dados trimestrais do Federal Reserve vão dizer se a fatia do 1% mais rico continua subindo junto com a bolsa.

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